ENTREVISTA
07/09/2015 - Edição 31 - Ago/2004
Denise Delfim

Guttenberg Nery Guarabyra Neto
Pedaço da Vila: Quando você começou a se interessar por música?
Guarabyra:  Meu pai era missionário Batista no  sertão do vale do Rio São Francisco e minha mãe o ajudava, inclusive organizando os corais nas comunidades por onde seguiam evangelizando. Ela era organista e eu, desde muito cedo, me aboletava em seu colo enquanto ensaiava em casa. Assim, meus ouvidos sempre estiveram plenos de música e o interesse cresceu naturalmente.
 
Pedaço daVila: Quais suas influências musicais e sua formação?
Guarabyra: Como vivia no sertão, as primeiras influências vieram do que ouvia o povo cantar. E o povo tanto entoava Luís Gonzaga quanto cantos populares de folclore. E, para temperar tudo isto, vinham os hinos, que ouvia em casa e na igreja, que eram adaptados, como todo o hinário batista, dos ‘spirituals’ americanos, principalmente da região do Mississipi.
 
Pedaço daVila: Quando conheceu Sá e Zé Rodrix?
Guarabyra:  Quando cheguei ao Rio de Janeiro, para tentar alguma coisa, já encontrei o Sá com a carreira iniciada, tendo inclusive músicas de sucesso na interpretação de cantores da época. Fizemos uma grande amizade, que foi interrompida em virtude de eu ter vencido o II Festival Internacional da Canção (com Milton Nascimento em segundo e Chico Buarque em terceiro lugares, na fase nacional, e na Internacional, fiquei em terceiro lugar, atrás de Jimmy Fontana - Itália - e Quincy Jones - Estados Unidos) e ter seguido carreira solo. Reencontrei o Sá anos depois, quando estava desfazendo seu primeiro casamento, à procura de um lugar para onde se mudar. Na ocasião, eu dividia um imenso apartamento em Ipanema, com mais dois amigos jornalistas, e o convidei a ingressar naquela república. Ele aceitou e se mudou. Na época, ele estava começando a criar uma dupla com Zé Rodrix e os ensaios iniciais foram no apartamento. Como era de se esperar, de tanto dar palpite e cantar juntos, acabamos virando um trio, que fez logo grande sucesso. Mais tarde, Rodrix abandonou o trio e seguiu cantando sozinho, enquanto continuávamos em dupla (Sá e Guarabyra). No último Rock in Rio, a direção do evento quis fazer uma homenagem ao Rock Rural, que é uma vertente do rock brasileiro criada por nós, e chamamos Rodrix, que foi pai desta vertente conosco, a cantar com a gente apenas no Rock in Rio. Porém, já durante os ensaios vimos que valia a pena voltar a cantar juntos novamente e voltamos então a ser Sá, Rodrix e Guarabyra.
 
Pedaço daVila: Qual a sua primeira música de sucesso e até agora já são quantos discos gravados?
Guarabyra: A Primeira Canção da Estrada e Mestre Jonas, com o trio. Em dupla, Sobradinho (O sertão vai virar mar / dá no coração...) e Espanhola (Te amo espanhola...). De lá para cá já são dezesseis discos.
 
Pedaço daVila: Quais as músicas preferidas de sua autoria?
Guarabyra: Difícil dizer. Dona, Roque Santeiro, Espanhola... Todas são como filhos de que a gente gosta muito.
 
P.daVila: Paralelamente à sua carreira artística, você tem outra atuação?
Guarabyra: Lancei o romance O Outro Lado do Mundo e, ano que vem, lanço outro, além de um livro de crônicas. E escrevo também para a Agência Estado.
 
Pedaço daVila: Fale de seu livro “O outro lado do Mundo”?
Guarabyra: Ele foi chancelado pelo MEC como livro paradidático e adotado em escolas Brasil afora. Tenho recebido cartas com abaixo-assinados para que escreva mais uma aventura com os personagens que criei no livro. É muito gratificante quando viajo e, entre os fãs que encontro ao fim dos shows, surgem alguns que  discutem a trama do livro.
 
Pedaço daVila: Por que resolveu seguir carreira solo?
Guarabyra: Há inúmeras canções minhas que não se adaptam ao trio e são muito fortes e merecem ser mostradas. Para realizar isto, só lançando um disco solo. Já o show solo. O disco “Só Guarabyra” virá até o fim do ano.
 
Pedaço daVila: Não tem previsão de novos trabalhos com os antigos parceiros?
Guarabyra: Estou sempre compondo com parceiros novos e antigos. Recentemente, fiz nova parceria com  Flávio Venturini, que já tinha feito Espanhola comigo.
 
Pedaço daVila: Já tem programados shows do “Só Guarabyra” na cidade?
Guarabyra: Estamos com muita coisa programada para cidades do interior e de outros estados. Acabamos de chegar de uma excursão pelos estados de Minas Gerais e do Rio de Janeiro, onde nos apresentamos inclusive no Canecão.  Aqui em São Paulo estarei com o show solo “Só Guarabyra” acompanhado de banda e trio vocal, no Teatro São Pedro, nos dias 27 e 28 deste mês de agosto.
 
Pedaço daVila: Você nasceu em Barra do Rio Grande, Bahia. Qual foi sua trajetória até chegar na Vila Mariana? Como conheceu o bairro?
Guarabyra: Primeiramente, fui para o Rio. Depois, seguindo a mesma trajetória de muitos artistas, mudei-me para São Paulo, onde me adaptei excelentemente e de onde não pretendo mais sair. Meus primeiros empresários aqui foram a família Lucas, da H2 Promoções, cuja sede ainda é aqui na Vila Mariana. Eu, ultimamente, morava nos Jardins e estava  achando a vida por lá muito tumultuada. Quando resolvi me mudar, a primeira oferta de apartamento que recebi foi aqui na Vila Mariana. Assim que senti novamente o sabor dos velhos tempos no ambiente tranqüilo do bairro, não pensei duas vezes e fechei negócio. Estou pra lá de feliz em estar novamente no bairro, ainda mais que, desta vez, estou morando e participando da comunidade que aprendi a curtir através de todos estes anos. Para coroar esta volta, ainda tenho o prazer de, na carreira solo, estar sendo empresariado de novo pela família Lucas. Desta feita, pela minha querida amiga Thelma Lucas.

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