ENTREVISTA
21/06/2015 - Edição 150 - Jun/2015
Denise Delfim

Ivaldo Bertazzo
O premiado coreógrafo brasileiro Ivaldo Bertazzo alia educação e dança em um trabalho dedicado à reeducação corporal. Criador de um método que leva seu nome, e autor de uma trilogia de livros dedicada ao tema, ele estará no Sesc Vila Mariana para ministrar o curso Gesto Orientado. Nesta entrevista exclusiva, ele explica a filosofia de seu método, destaca a importância da consciência corporal para a saúde física e mental e fala sobre o papel transformador de sua arte na vida de pessoas comuns
 
 
Pedaço da Vila: O senhor começou a se dedicar à dança na juventude. Como foi esse início?
Ivaldo Bertazzo: Na época em que eu comecei a estudar dança, os ícones eram os bailarinos que vinham da Rússia, entravam nos Estados Unidos e viravam deuses dançantes, como Rudolf Nureyev e, mais tarde, Mikhail Baryshnikov. Então, tínhamos alguns ídolos; é bom que o adolescente tenha algum símbolo para perseguir. Era um sonho ser um grande bailarino, que voasse no céu. Lógico que nada é assim tão simples. Ou seja, essa prática esportiva diária ajudou muito no meu desenvolvimento intelectual. Eu começei a estudar dança com 16 anos de idade, num período em que isso não era uma prática. Hoje, o jovem que inicia pela dança está num mundo em que isso representa mercado de trabalho, e não existe tanto preconceito.
 
Pedaço da Vila: O senhor teve apoio familiar?
Ivaldo Bertazzo: Não tive nenhum apoio familiar. Naquela época, a dança era uma forma, inclusive, de rebeldia contra a sua família. Algo que o jovem sempre tem, não é?
 
Pedaço da Vila: Em que momento os gestos e os movimentos corporais passaram a lhe interessar?
Ivaldo Bertazzo: Nesse período marcado pela ditadura civil-militar, o trabalho ficou muito sensorial, as artes plásticas se associavam ao movimento; havia muita expressão corporal, prática que teve início nos anos 70 e 80. Tudo era voltado para o caminho da psicologia do corpo, o conhecimento do movimento. Eu fui me integrando a essas redes e direcionando para as sensações, com trabalhos internos como a yoga. E isso me ajudou a trabalhar a escola que criei. Se naquele período todos estavam voltados para esses caminhos mais sensoriais, hoje vejo algo bem diferente, pois todos estão direcionados à eficiência, à energia, a força e massa musculares, aparelhos,  academias... Naquela época tudo era associado à sensibilidade interna.
 
Pedaço da Vila: O que o levou a realizar uma pesquisa sobre os gestos das danças pelo mundo e como isso foi incorporado em seu método?
Ivaldo Bertazzo: Como eu tinha alunos que vinham de diferentes áreas profissionais e que não eram exatamente estudiosos da dança, eu fui conhecer diferentes escolas de movimento do mundo para saber como, por exemplo,  é que o indiano usa a sua face, as suas mãos; como o chinês usa os seus braços e os bastões para educar a postura do pescoço; como que a escola russa trabalha os movimentos de pernas; e tudo isso direcionado ao âmbito mais popular. Então, eu quis tirar das tradições mais populares o que cada uma conseguiu entender sobre como é o corpo humano, para depois integrar um pouco de cada cultura, dessa herança que se desenvolveu como civilização.
 
Pedaço da Vila: O senhor ensinava dança para uma camada privilegiada financeiramente, mas, depois, levou sua arte para a periferia. Há diferenças entre esses corpos?
Ivaldo Bertazzo: A classe mais privilegiada brasileira é muito mista. Eu, por exemplo, sou filho de mãe libanesa e pai italiano. Tenho uma amiga cujo pai era polonês e a mãe cabocla, ou seja, essa mistura muito recente de raças que invadem o Brasil traz corpos muito diferentes. Esses eram os cidadãos dançantes que vinham se exercitar na minha escola. O jovem que vive na periferia tem um corpo mais uniforme, muito mais igual na sua estrutura. Todos eles são de ascendência negra, de caboclos, que têm uma tipologia mais equilibrada. Porém, trazem problemas diferentes. São corpos que vivem na cidade, se deslocam, mas sofrem outros níveis de dificuldades, de desconforto. Então, o desenvolvimento com os jovens da periferia era no sentido de trazer mais conforto corporal para eles poderem desenvolver um trabalho intelectual sem tanta agressividade contida no corpo, sem tanta hiperatividade e desconforto para conseguir trabalhar seu intelecto. O cidadão dançante de diferentes raças e esses jovens mais uniformes, com o corpo mais rígido, eram de focos diferentes, mas complementares. 
 
Pedaço da Vila: Suas aulas na periferia tornaram-se uma forte ferramenta social...
Ivaldo Bertazzo: Desde o princípio o objetivo era esse mesmo. Eu fiz parte de uma rede que se preocupava com onde começava o problema de trabalho, de inclusão, dos jovens de periferia através da arte, na sociedade e no mercado de trabalho. Eu entrei nessa onda que fazia parte dessa época, fim da década de 80, começo da década de 90.
 
Pedaço da Vila: Sendo o corpo uma ferramenta, ele vem sendo bem utilizado?
Ivaldo Bertazzo: Temos hoje muito conhecimento do que faz mal e do que faz bem ao corpo. Vivemos numa época de acesso à internet, de muita informação, muito mais iluminada sobre saúde do que há cinquenta anos. Eu vejo um nível alto e competitivo praticado por muitos professores de esporte que estão se formando. Temos muitas universidades. Temos um índice muito grande de novos profissionais do corpo. Ainda tudo é um pouco rude no entendimento, mas eu acho que forçosamente isso vai levar a um mercado mais competitivo e mais seletivo, onde as pessoas terão que estudar mais e entender mais, porque o conhecimento é acessível; eu acho que isso vai melhorar muito.
 
Pedaço da Vila: O que distancia o homem de sua consciência corporal?
Ivaldo Bertazzo: Talvez a falta de um trabalho psíquico. Se eu não tenho um entendimento do 
meu psiquismo, de como é a minha personalidade, de quais vícios de comportamento eu tenho, fica muito difícil mudar o corpo, pois ele não muda só com exercício: ele muda na tomada de consciência, da associação entre o psíquico, a globalidade e a espiritualidade. Não existe essa coisa de mexer apenas em um setor. 
 
Pedaço da Vila: De que forma é possível exercitar essa globalidade?
Ivaldo Bertazzo: É preciso se tornar um ser da sociedade, que participa politicamente, pois somos extremamente inertes e preguiçosos; é preciso entender um pouco, por exemplo, de como se organiza o urbanismo de uma cidade, e interferir. É preciso mexer nos processos educacionais e de saúde. Nós temos que ser mais participantes para que o próprio corpo também reaja.
 
Pedaço da Vila: De que maneira esse distanciamento se reflete em nossa saúde?
Ivaldo Bertazzo: O controle da doença para não gerar um envelhecimento precoce depende de muita participação, de muita ação global. Não somos seres que vivem sozinhos; quanto mais nos fechamos em nosso pequeno mundo — pois é normal lutarmos para sobreviver —, mais nos trancamos em nossas necessidades e mais doenças criamos. Então, para preservar a saúde, tenho que ser um ser que participa do meio ambiente, das relações, da vida cultural que me envolve.
 
Pedaço da Vila: O senhor forma professores. Quais são os critérios e os trabalhos desenvolvidos para se tornar um mestre em seu método?
Ivaldo Bertazzo: É preciso entender a arquitetura corporal, como que o esqueleto humano se organiza para ficar em pé, quais são os princípios para termos uma boa postura, pois precisamos dela para escrever, para comer, para conversar, e, também, para caminhar, nos locomovermos. Entender a respiração, que é muito importante, e estímulos na pele de contorno de fricção, de circulação; esses são princípios básicos.
 
Pedaço da Vila: Até dezembro, o senhor irá ministrar o curso Gesto Orientado, no Sesc Vila Mariana. Como será o curso e quem pode participar dele?
Ivaldo Bertazzo: Poderá participar qualquer pessoa entre 18 e 60 anos. Porém, faremos uma avaliação para ver se a pessoa está em uma situação física que não ofereça riscos à sua saúde. Ela tem que trazer um histórico corporal de vivências e experiências, porque temos o objetivo de realizar um trabalho final performático, para apresentar os resultados, e nesse aspecto teremos que ser mais exigentes, coisa que não faço na escola. Mas, para o curso no Sesc, iremos selecionar, respeitando a idade de cada um.

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