ENTREVISTA
11/06/2014 - Edição 139 - Jun/2014
Da Redação

Fernando Fernandes
Ele já cobriu quatro Copas do Mundo e apresenta o programa “Papo de Boleiro”, na Band. Nesta entrevista ao Pedaço da Vila, um dos principais nomes do jornalismo esportivo do país revela suas expectativas em relação à Copa, que acontece neste mês, lista os times favoritos a levantar a taça, destaca os pontos fortes e fracos da nossa seleção, explica o que mudou e ainda mudará no esporte mais amado do país e, embora tenha nascido no Mooca, confessa seu amor pela Vila Mariana!
 
Pedaço da Vila: Conte-nos um pouco sobre sua relação com o futebol.
Fernando Fernandes: Na verdade eu queria ser médico. Entrei no Jornalismo meio que por acaso. Comecei a estudar Publicidade e, no meio do caminho, mudei para Jornalismo. Comecei a trabalhar na Rádio Cultura, da Fundação Padre Anchieta, e não parei mais. Naquela época eu fazia entrevistas para um programa de Sertanejo. Eu sempre gostei muito de esporte e de viajar. Comecei com o esporte quando trabalhei num programa chamado Bar Brasil, na Rádio Excelsior, hoje CBN. Nesse tempo surgiu uma oportunidade na Rádio Gazeta, onde comecei a trabalhar como produtor, e depois como repórter, ao lado do Omar Santos. 
 
P.daVila: O Brasil foi anunciado para sediar a Copa do Mundo há sete anos. Estamos preparados para realizar esse evento?
Fernando Fernandes: Não. Não está nada pronto. Já entregaram a toalha em inúmeros aspectos: em mobilidade urbana; alguns estádios só ficarão prontos após a Copa do Mundo. O Itaquerão, estádio de abertura do Mundial, estará funcional, mas terminado somente após a Copa — os próprios administra-dores dizem que será finalizado em 2015. Agora não temos o que fazer, é hora da Copa do Mundo. O problema é que isso pode respingar na Olimpíada. Dependendo de como for a Copa, pode- mos correr o risco de ficar sem a Olimpíada no país. 
 
P.daVila: Esses problemas se devem a quê?
Fernando Fernandes: À má gestão. A gestão pública no Brasil é muito ruim, muito problemática, enrolada, promíscua em muitos aspectos. A situação ficou delicada por conta disso. Essa foi a Copa do Mundo que teve o maior tempo para ser preparada; o orçamento estourou muito do que havia sido previsto, e o mais grave disso tudo é que foi prometido à população que não seria usado dinheiro público. No final, 90% dos gastos foram com dinheiro público. Essa é a razão de toda insatisfação com o evento e a motivação dos protestos. Embora esses protestos sejam válidos e justos, nós deveríamos ter protestado quando ocorreu a candidatura do Brasil para sediar a Copa. Qualquer pessoa mais atenta não teria dúvidas de que isso iria acontecer. 
 
P.daVila: Embora haja problemas e protestos, o que representa para o Brasil sediar esse Mundial?
Fernando Fernandes: Eu acho que o maior legado que pode ficar, sem dúvida, é no aspecto esportivo, com suas arenas e estádios. Tomara que, com essas arenas, o futebol se torne cada vez mais profissional. O problema são as escolhas que foram feitas. Já naquele momento se contava com o finan-ciamento público, ao contrário do que era dito: que tudo seria feito com financiamento privado. É preciso ter vontade polí-tica para bancar as obras. Agora, esses problemas de mobilidade e aeroportos são reformas de base que deveríamos ter feito sem ter uma Copa do Mundo; não precisamos de um evento para fazer tudo isso. Conseguimos nos superar na má gestão, na dificuldade de comandar o país e fazer a coisa acontecer.
 
P.daVila: A lista do Felipão majoritariamente é composta por jogadores jovens. Quais são os pontos fortes e fracos dessa equipe?
Fernando Fernandes: O ponto fraco é a falta de experiência. A maioria dos jogadores disputará o Mundial pela primeira vez, mas, em contrapartida, eles possuem muita experiência em seus clubes. Eles saíram muito cedo do país para jogar em clubes europeus e estão acostumados a decidir competições importantes lá fora. O ponto forte que temos é o conjunto, algo contrário à tradição da seleção brasileira, que sempre viveu de talentos individuais. Hoje, temos o talento do Neymar, mas o forte será o conjunto. 
 
P.daVila: O fortalecimento da seleção brasileira como conjunto se deve a quê?
Fernando Fernandes: O grande mérito dessa gestão da CBF foi a escolha do Felipão e do Parreira. São profissionais que se completam, campeões mundiais, e passam segurança e credibilidade aos jogadores que chegam à seleção. Isso faz com que a nossa seleção fique com o pé no chão; não há nela espaço para o ‘eu’, e sim para o ‘nós’. A individualidade de cada um não se sobrepõe ao conjunto. Isso é muito importante.
 
P.daVila: Quais seleções têm possibilidades de conquistar essa Copa?
Fernando Fernandes: Chile e Bélgica estão muito fortes. O primeiro fez uma ótima elimi-natória e tem um bom time; o segundo, depois de muitos anos, clas-sificou-se muito bem e tornou-se uma sensação na Europa. E, claro, as seleções tradicionais, como Itália, Espanha, Alemanha, França. Para mim, sem dúvida, a seleção alemã é a mais forte. E o Brasil, logicamente. 
 
P.daVila: Você já cobriu quatro Copas do Mundo. O que muda, sendo disputada no Brasil? 
Fernando Fernandes: Não muda muita coisa. A responsabilidade é a mesma. Neste ano haverá muito mais gente trabalhando, muito mais visibilidade. 
 
P.daVila: Você acompanha a seleção de perto. Quais foram os momentos que mais lhe marcaram nessas coberturas?
Fernando Fernandes: O sentimento de estar perto é muito mais forte. Presenciar a conquista de uma Copa é muito emocionante, assim como perdê-la. Na França, em 2008, foi terrível. Em 1994 eu vi o Brasil ganhar e foi muito emo-cionante. Na volta da África do Sul, após o Brasil ser eliminado, o clima dentro do avião com os jogadores era terrível, parecia um velório. No fundo, embora cada um esteja lá para fazer uma coisa (jogadores e imprensa), tudo se confunde, porque todos ficam envolvidos. Acho que faz parte da nossa profissão contar essa história com envolvimento nessa emoção. O mais marcante é a possibilidade de conviver com a alegria de ganhar e com a dor de perder.
 
P.daVila: Os gastos de dinheiro público para a realização da Copa motivaram muitos protestos contra o evento. De que maneira isso reflete na competição?
Fernando Fernandes: Com essa Copa do Mundo foi vendida a imagem do Brasil como um país de muita praia, alegria, festa e gente bonita, e no meio disso tudo haverá um jogo de futebol. Partes dessa equação foram comprometidas 
com o que aconteceu durante a Copa das Confederações, e que acontecerá novamente agora. Nós teremos problemas, mas ainda não sabemos a dimensão disso tudo. Lavamos roupa suja diante do mundo. 
 
P.daVila: Em que momento  o futebol começou a levar os nossos jogadores para a Europa, e quando o esporte passou a ser um grande negócio?
Fernando Fernandes: Começou a mudar após a Copa de 70. Ali foi o divisor daquele futebol romântico para o futebol pragmático. Quando a Copa entrou na televisão, ela virou um grande negócio. Os clubes aqui, no Brasil, não sobrevivem sem televisão; diferentemente da Europa, onde os clubes ainda trabalham a bilhe-teria. Por isso é que essas arenas podem mudar o modelo de gestão do futebol brasileiro. As arenas propiciarão uma permanência maior do torcedor, uma fidelidade maior. Hoje, mais do que nunca, embora ainda seja algo embrionário no país, é o Pay Per View o futuro do futebol. Em um futuro não muito longe, a TV aberta exibirá, no máximo, um jogo por semana. O torcedor que paga 10 reais para assistir a um jogo no estádio está com os dias contados. 
 
P.daVila: Então, a diferença entre o futebol de antigamente e o futebol de hoje é justamente ele ter se tornado um negócio?
Fernando Fernandes: Sem dúvida. Aqui, no Brasil, ele está tentando se tornar um grande negócio. Movimenta cifras milionárias, mas a gestão é amadora, pois o clube não tem um dono. Hoje é uma sociedade que delega um poder para um presidente, que por sua vez o delega para quem fará a gestão do futebol. O futebol é o único esporte coletivo em que o imponderável é possível constantemente. Por isso ele é tão apaixonante.
 
P.daVila:  O que poderá decidir esse mundial?
Fernando Fernandes: É um campeonato muito curto. Ganhar o primeiro jogo é muito importante; e mais importante para o Brasil é o grito da torcida. Uma Copa do Mundo não se ganha apenas jogando bem; tem que ter força e vontade. Hoje, não temos uma seleção de craques, mas uma seleção de garra. Os times europeus preparam muito bem os jogadores brasileiros que atuam lá. O jogador brasileiro é muito preguiçoso, sempre acha que o talento dele irá resolver, e hoje isso não é mais suficiente. 
 
P.daVila: Os brasileiros não entraram no clima...
Fernando Fernandes: Problemas no país a gente tem, mas não podemos culpar a Copa pela não solução deles. O termômetro será o desempenho do time brasileiro. Se ele cami-nhar, a gente vai até a final, e será algo funda-mental para resgatar a paixão pelo futebol, que ninguém deixou de ter. É lógico que há muitos fatores que estão inibindo essa demonstração; não vemos as ruas pintadas... De qualquer maneira, teremos que conciliar essa insatisfação com uma Copa do Mundo; pois são coisas distintas. Tomara que o sucesso da seleção brasileira sirva para mudar a sociedade, que o futebol deixe de ser uma ferramenta de manipulação, e sim de transformação.
 
P.daVila: Há quanto tempo você mora na Vila Mariana?
Fernando Fernandes: Há dez anos. Nasci na Mooca. Gosto muito desse bairro. Meu filho estuda aqui e posso fazer tudo a pé, como frequentar o Parque Ibirapuera, a padaria, a locadora... Ele ainda é uma vila, onde as pessoas se conhecem e conversam. Aqui eu me sinto em casa! Dei sorte!

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