ENTREVISTA
18/03/2014 - Edição 136 - Mar/2014
Da Redação

Entrevista: Elisaldo Carlini
No último Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), realizado por pesquisadores da  Unifesp, cerca de 1,5 milhão de jovens e adultos usam maconha diariamente no país. Para entender os mitos e as verdades que estão por trás da cannabis sativa, o Pedaço da Vila conversou com o Professor Titular de Psicofarmacologia do Departamento de Medicina Preventiva da Unifesp e fundador e diretor do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid). A  seguir, ele fala sobre o preconceito criado em torno da maconha,  sobre sua legalização e descriminalização e reitera a importância da aprovação no país para fins medicinais, ressaltando o Simpósio Internacional sobre o tema que acontecerá em maio, na Cinemateca Brasileira
 
Pedaço da Vila: Qual é a origem da maconha (cannabis sativa)?
Elisaldo Carlini: Ela é originária da África. O primeiro registro que temos do uso da maconha é datado de 5 mil anos atrás, e consta de um herbário de um imperador chinês. Na tradição chinesa do período, a maconha era considerada uma droga de capacidades, capaz de tirar dores e proporcionar efeito analgésico. Ela era, naquela época, misturada ao vinho. A planta, no conceito da população e também da medicina chinesa, era a doadora de prazer, a droga que apagava todos os pecados e os sentimentos de culpa. Era considerada a droga da reflexão e estimulante de uma melhor qualidade de vida. No século 19, na Europa, um psiquiatra francês, Moreau de Tours, passou alguns meses no Egito, onde se encantou com a maconha. Quando retornou à França, ele a levou consigo e mais tarde escreveu o livro Haxixe e a Alienação Mental, que fez a maconha explodir pela Europa, tanto em seu uso recreativo como no uso medicinal. A partir daí, no final do século 19, a maconha ganhou uma dimensão enorme e se tornou um dos mais importantes medicamentos da medicina francesa, italiana, espanhola, inglesa etc. Ela era utilizada para inúmeras finalidades; a principal era aliviar dores de origem nervosa; o médico da rainha Vitória receitava maconha para ela. A literatura médica especifica que a maconha, quando bem administrada, é um dos melhores medicamentos que conhecemos. Nos Estados Unidos, um dos mais famosos livros de medicina diz que a maconha é uma das divindades da neurologia.
 
P.daVila: Quando ela veio ao Brasil?
Elisaldo Carlini: A maconha foi trazida para o Brasil, possivelmente, pelos primeiros escravos. Mas as naus portuguesas que desembarcaram em território brasileiro possuíam as velas e as cordas feitas da fibra da maconha, uma das mais importantes e resistentes na época. Quando começaram, nos Estados Unidos, a fabricar as fibras sintéticas, Harry Jacob Anslinger, um dos sócios da fábrica, também era chefe da repressão ao tráfico de drogas, e a maconha foi proibida. Foi Anslinger quem fez com que a maconha fosse vista como a droga mais viciante, e, logo após a Segunda Guerra Mundial, ela foi proibida no mundo todo. Nas Nações Unidas a maconha é considerada uma das drogas mais perigosas, junto com a heroína, o que não tem nada a ver. Isso foi colocado em 1961 e ocorreu por conta de um brasileiro. Durante uma reunião internacional promovida pela antiga Liga das Nações, em 1924, em Genebra, para discutir o consumo de ópio, que naquele momento estava dando problemas, esse médico brasileiro, no meio do encontro, disse que precisava discutir a maconha, pois a considerava mais perigosa do que o ópio. Depois desse encontro, ficou determinado que a maconha não fosse mais usada nem para fins medicinais. Em 1961, a ONU decretou a maconha como a mais perigosa das drogas, ao lado da heroína, o que é um absurdo completo. Isso congelou todas as pesquisas que vinham sendo realizadas. Mas, logo em seguida, começaram a surgir algumas descobertas científicas como a que comprova que o cérebro produz uma substância muito semelhante à maconha, a canabinoide. Então, a maconha começa a deixar de ser vista como a erva maldita e a erva do escravo negro. Esses preconceitos existiam e ainda existem! A maconha foi considerada a droga do preguiçoso, de quem não queria trabalhar. No Brasil colônia, durante as entressafras de açúcar, era costume dos donos de engenhos dar maconha aos negros para manter a tranquilidade e a paz.
 
P.daVila: Em que momento a maconha passou a ser usada para fins medicinais, e para quê?
Elisaldo Carlini: O uso da maconha para fins medicinais vem desde a antiguidade. Nas últimas décadas, vem ganhando uma dimensão enorme, porque a ciência está ajudando a convencer as pessoas de que a maconha também é um medicamento, o que fez seu uso medicinal ser aprovado em diferentes países. O primeiro uso foi para combater a náusea e o vômito produzidos pela quimioterapia no tratamento de câncer. Percebeu-se isso a partir de jovens que tinham leucemia e não apresentavam dores e vômitos ao usarem a maconha. Depois desse fato foram realizadas pesquisas e isso foi realmente comprovado. Mais tarde, foi usada para combater a inapetência da AIDS, assim como para a esclerose múltipla, doença que afeta os nervos periféricos e os músculos, causando muita dor. Para isso, é um dos melhores remédios que existem. O uso medicinal da maconha também está aprovado para alguns casos de epilepsia, o que está sendo muito estudado; especialmente epilepsia em crianças. Ela também é usada em caso de dores miopáticas ou neuropáticas, como neuralgia do trigêmeo, que provoca uma dor intensa. Nesses casos citados já é absoluta-mente benéfico o uso da maconha. Em decor-rência de preconceitos, interesses e de seu uso recreativo, houve uma proibição do acesso a medicamentos para pessoas que sofrem. No Brasil, só ocorrerá a aprovação para seu uso medicinal quando o Ministério da Saúde analisar um medicamento à base da maconha ou seu princípio ativo. No entanto, os trabalhos científicos são suficientemente claros sobre seus benefícios. Acontecendo essa aprovação, os remédios, nacionais ou importados, poderão ser comprados em farmácias, sob prescrição médica. No Brasil ainda é pequeno o contingente de pesquisas sobre o assunto. Temos alguns núcleos que saíram daqui, da Unifesp e Cebrid, que vêm desenvolvendo pesquisas em Minas Gerais, Brasília, Ribeirão Preto e Santa Catarina.
 
P.daVila: Após tantos anos dedicados ao assunto, qual é a opinião do senhor sobre a legalização e a descriminalização da maconha no Brasil?
Elisaldo Carlini: Quanto à descriminalização da maconha, eu não tenho dúvida de que isso é preciso. Mas não estamos lutando para isso, e sim para a aprovação de seu uso medicinal. A aprovação não passa pela descriminalização, ela é totalmente independente. Agora, a grande discussão — e isso não se pode misturar com outros interesses —, é a legalização da maconha. Eu não sou nem a favor nem contra a legalização, pois legalizar é permitir a plantação, o comércio, a propaganda e o uso livre, e pergunto: Isso será um problema para o médico? Não. Eu posso, no máximo, opinar. O que isso significa para o ser humano? Não temos que estudar a maconha que o homem consome, mas estudar o homem que usa a maconha. O problema está no homem. O que faremos com os jovens que usam maconha?
 
P.daVila: A maconha, muitas vezes, está associada à violência. Seu uso pode tornar uma pessoa mais violenta?
Elisaldo Carlini: A maconha não tem nada a ver com a violência. Seu efeito é contrário a esse. Isso demonstra como a cultura interfere no comportamento humano. O comportamento gerado na maioria das pessoas que usam a maconha tende mais para o lado de torná-las dispostas a conversar e manter um relacionamento social. Ela promove alteração mental como ilusão, delírio e alucinação, e pode ter a boa e a má “viagem”, como acontece com o consumo da bebida alcoólica. Associar a maconha à violência é um dos maiores mitos que criaram em torno de seu uso. Outro mito é o de que ela destrói os neurônios; não tem o menor sentido falar isso. Pesquisas recentes comprovam que não é nada disso, não existe nenhum fundamento. O consumo da maconha afeta a memória de curto prazo, como gravar um número de telefone; ela é afetada. Outro exemplo é seu uso durante uma leitura, pois  ela afeta a concentração. Mas isso se recupera logo em seguida, após passar o efeito. Se você fumar maconha o dia inteiro, a memória será afetada, mas se você fumar uma vez ao dia, não tem nenhum efeito colateral. Costumo brincar que a mamadeira foi a porta de entrada para as drogas, já que todos que usam maconha mamaram um dia. Colocar a maconha como porta de entrada para outras drogas é uma coisa que não tem o menor sentido.
 
P.daVila: Qual é a ação da maconha no corpo de um usuário?
Elisaldo Carlini: Isso é uma coisa complicada. Conhece-se o efeito, que é bem descrito quando você analisa alguém sob o efeito da maconha. Agora, o mecanismo de ação é mais difícil, pois temos bilhões de neurônios, mais de 100 bilhões de células em nosso cérebro que se conectam umas às outras, sendo que uma única célula faz emissão de contato com até 250 outras. Isso dá um número infinito de combinações em nosso cérebro. De alguma maneira, todas as drogas que nós tomamos, incluindo os medicamentos, agem no nível do sistema nervoso central. Temos o que chamamos de neurotransmissores, e as drogas transmitem uma mensagem de um neurônio para outro. Essa mensagem tem que ser destruída para dar lugar a outra, e assim por diante. É quase impossível entendermos, no detalhe, o mecanismo de ação da maconha.
 
P.daVila: A maconha causa dependência?
Elisaldo Carlini: É raro, mas existem casos de pessoas que usam maconha continuamente e encontram dificuldades em parar. Vou dar um exemplo de dependência que pode ocorrer com as mais variadas coisas. Há estranhas dependências que constam da Literatura Médica, como é o caso da cenoura. Essas pessoas andam com pedaços de cenoura e ficam com a cor da pele amarela. Há um grande exagero em afirmar que a maconha vicia, que leva o indivíduo ao crime e o torna refém da droga. Existem muitos medicamentos encontrados nas farmácias que geram dependência e continuam sendo usados, como Rivotril, Lexotan, Psicosedin, entre muitos outros.
 
P.daVila: A relação dos pais com filhos usuários é muito complicada. O que o senhor aconselha a um pai e uma mãe que descobrem que seus filhos estão usando maconha?
Elisaldo Carlini:  Quando se descobre que um filho está usando maconha, a primeira coisa a se fazer é manter a calma e não entrar em pânico. É preciso conversar com ele para entender o quanto usar maconha é importante para ele. É um momento para aconselhar a não fazer disso um uso constante, pois usar em excesso pode prejudicar o desempenho escolar. Também é preciso conscientizar que é perigoso dirigir sob o efeito da maconha e sair fumando pela rua. O uso da maconha pode causar tensão mental, mas não é preciso ficar preocupado, isso passa com diálogo e informação.
 
P.daVila: No mês de maio acontecerá o 4.º Simpósio Internacional sobre a Maconha. Qual será a proposta desse encontro?
Elisaldo Carlini: Nos dias 15, 16 e 17 de maio organizaremos o 4.º Simpósio Internacional sobre a Maconha, que acontecerá na Cinemateca Brasileira. Ele contará com professores internacionais dedicados ao estudo da maconha e de pacientes brasileiros que sofrem de epilepsia. Eles irão relatar seus casos e o que usam como medicamento. Confrontaremos a maneira de tratamento do assunto no Brasil com a de  países em que o uso médico da maconha é liberado. O intuito do simpósio é abordar o uso da maconha para fins medicinais. A partir dos debates com o público e com os palestrantes, discutiremos sobre como podemos trabalhar aqui.

 


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