ENTREVISTA
03/03/2014 - Edição 135 - Fev/2014
Da Redação

Ana Lúcia Dias Paulo
Integrante do Corpo Docente da Associação Paulista de Medicina, a médica conta a história de Dr. Hahnemann, o estudioso médico alemão que criou a homeopatia há 200 anos. Autora dos livros Os miúdos, Pequenos medicamentos em pediatria homeopática e O que você precisa saber sobre o medicamento homeopático e muito mais..., pela Editora Organon, ela recebeu o Pedaço da Vila em seu consultório, na Vila Mariana, e explicou o que é o tratamento da “lei da semelhança”, e suas diferenças em relação à alopatia, que busca a cura pela medicina dos contrários
 
Pedaço da Vila: O que é a Homeopatia?
Ana Lúcia: A palavra Homeopatia vem do grego e significa “cura através do semelhante”. É uma especialidade médica e farmacêutica exercida por médicos, cirurgiões dentistas e veterinários. É uma ciência que se baseia em leis naturais indiscutíveis e visa priorizar a individualidade de cada paciente, observando o Homem como um todo, como um ser indivisível. O princípio fundamental da Homeopatia é a cura pela Semelhança, por meio da ação de medicamentos diluídos e dinamizados. É importante que as pessoas não confundam a Homeopatia com tratamentos por meio de chás, ervas ou florais.
 
P.daVila: Como ela surgiu?
Ana Lúcia: Há cerca de 200 anos, pelo médico alemão Samuel Hahnemann. Na época em que ele fez o curso de Medicina, na Alemanha, não existia a parte prática; os alunos recebiam na sala de aula apenas informações. Depois de se formar, ele foi para a Áustria fazer outra faculdade de Medicina, focada na parte prática, com a intenção de ter uma formação mais completa. Com pouco mais de 20 anos, Dr. Hahnemann já falava onze idiomas, desde os básicos, como inglês, francês, alemão, e italiano até línguas não comuns, como grego, latim, sânscrito, árabe e caldeu. Ele queria entender um pouco de tudo. Para se sustentar na faculdade austríaca, ele trabalhou para seus professores, que lhe deram renomados autores para traduzir. Esse trabalho fez com que conhecesse grandes bibliotecas e obras, como a “Matéria Médica”, que explica a descrição dos efeitos das substâncias no ser humano. Além de médico, Hahnemann também era químico, e achava que o curso de Farmácia era necessário para ampliar ainda mais os seus conhecimentos. Sua primeira esposa, Johanna, com quem ele teve onze filhos, era filha de farmacêutico e trabalhar com o sogro lhe proporcionou bons conhecimentos. 
 
P.daVila: Qual foi a primeira descoberta de Dr. Hahnemann para criar o tratamento homeopático?
Ana Lúcia: Em seus estudos, ele identificou a propriedade de uma substância chamada Chinchona officinallis, china, usada até hoje para combater a malária. Após ler a descrição dos sintomas da china, ele constatou que os profissionais que preparavam esse medicamento manifestavam, em alguma fase da vida, os mesmos sintomas a serem tratados na descrição do remédio – na Homeopatia, isso é chamado de “Lei da Semelhança”.  Por conta disso, o médico, que era grande conhecedor da medicina hipocrática, se lembrou de Hipócrates, Pai da Medicina, que dizia que “o semelhante cura o semelhante”. Hipócrates foi o primeiro médico que descreveu quadros clínicos e, por meio dos sintomas e das sensações dos pacientes, colocava possíveis tratamentos. Dr. Hahnemann criou, então, uma medicina totalmente diferente da existente naquela época. Sua descoberta foi considerada muito ousada, divergindo da medicina da época e não sendo bem vista pelos médicos e farmacêuticos.
 
P.daVila: Com tanta resistência, como o Dr. Hahnemann conseguiu difundir a Homeopatia para o mundo?
Ana Lúcia: Embora a pro-posta do Dr. Hahnemann não tenha sido aceita pela legião médica, o tratamento foi bem visto pela população, que lotava o seu consultório. Contudo, ele foi perseguido e teve que mudar várias vezes de cidade, com a família. Sua esposa acabou falecendo, deixando-lhe os onze filhos para criar. Nesse período, a França estava no auge do Iluminismo, época em que novas ideias fervilhavam. A fama do médico chegou aos ouvidos da jovem Melanie Gohierd d’Hervilly, uma nobre da corte francesa, que marcou uma consulta com ele. Após três meses, eles se casaram, e por sua influência, o médico foi bem recebido, em Paris. Dr Hahnemann recebeu o aval da autoridade de saúde da França para exercer a Medicina Homeopática e atuou tranquilamente até o final da sua vida. Ele faleceu com mais de 80 anos, ganhando muitos discípulos, que se encarregaram de difundir a Homeopatia para todo o mundo.
 
P.daVila: Fale sobre as diferenças entre a Alopatia e a Homeopatia. 
Ana Lúcia: Na medicina alopática, ou clássica, sintomas como febre, inflamação ou dor são combatidos com antitérmicos, anti-inflamatórios ou analgésicos; é a “Medicina dos Contrários”. O Dr. Hahnemann era insatisfeito com esse método. Para ele, uma pessoa acometida por uma inflamação deveria ser curada através de uma substância que quando experimentada na pessoa sã, fosse capaz de causar um quadro semelhante de inflamação. Por isso a medicina do semelhante. O medicamento homeopático é uma força energética que veicula uma informação que atua sobre a Energia Vital levando o organismo a agir curativamente.
 
P.daVila: Existe confronto entre a Homeopatia e a Alopatia?
Ana Lúcia: Eu penso que a verdade da Medicina é única, as abordagens que são bem diferentes, pois a Homeopatia enxer-ga o paciente de uma forma holística, visto como um todo indivisível, ao passo que a Alopatia o trata de modo específico, analisando-o por partes; por isso ela tem especialistas para cada parte do corpo. A Homeopatia vê o ser como uma unidade formada por corpo e mente, que sofrem influência do meio externo (social e ambiental), e não só os sintomas isolados da doença, pois os fatores que desencadeiam uma otite, bronquite ou alergia variam de indivíduo para indivíduo, e o diagnóstico e o tratamento das enfermidades são feitos de forma panorâmica e individualizada. Por isso há o confronto entre as duas vertentes.  Vale lembrar que, após a conclusão do curso de Medicina, os médicos se formam alopatas. A Homeopatia é uma especialização e exige muito estudo e dedicação, do mesmo modo como os alopatas se especializam dentro da área que querem exercer. Elas divergem também em relação ao teste em animais, pois na visão homeopática não existe forma subjetiva de registrar sensações em cães, gatos ou camundongos, o que não significa que os animais não possam ser tratados com Homeopatia. Já a Alopatia considera que os exames laboratoriais e clínicos em animais podem ser positivos para o tratamento de humanos. O Dr. Hahnemann testava os medicamentos em seres humanos. Ele mesmo experimentou várias substâncias para entender seus pacientes e medicá-los da melhor forma possível.
 
P.daVila: Quais são as diferenças entre os medicamentos homeopáticos e o alopáticos?
Ana Lúcia: Para cada medicamento homeo-pático há cerca de oito mil sintomas descritos. Na nossa visão, não existem dois seres humanos iguais, tanto na saúde como na doença. Por essa razão, e levando em consideração o histórico genético e social do indivíduo, acreditamos que os seres reagem de diferentes formas a um determinado tipo de situação. Há casos de pessoas que sobrevivem ao frio de -70º C, enquanto outras não toleram a temperatura e morrem. Também podemos constatar que há pessoas que suportam mais a dor ou a febre. O arsenicum album, por exemplo, é um grande medicamento, que pode curar asma, crises crônicas de bronquite, sintomas de vômito e diarreia. De acordo com a dose, ele também pode ser venenoso, por isso na Homeopatia tudo depende de como o medicamento é preparado e dosado. Os parâmetros para o preparo de medicamentos homeopáticos são as experimentações em humanos saudáveis, cura pela semelhança e pelo uso de doses mínimas, infinitesimais. A maior parte dos alopatas não acredita na eficácia dos remédios homeopáticos e acha que dentro do vidro só tem água.
 
P.daVila: Há semelhanças entre os medicamentos alopáticos e homeopáticos?
Ana Lúcia: Sim. Muitos princípios ativos dos medicamentos alopáticos são os mesmos usados na homeopatia, porém a distinção entre os dois está justamente na forma da preparação. Uma determinada planta usada no preparo de um remédio alopático para tratar problemas cardíacos, pela sua preparação, ela pode manter sua parte medicamentosa e também a outra tóxica, por isso existem efeitos colaterais nos remédios alopáticos, descritos nas bulas. De acordo com o Dr. Hahnemann, o preparo do medicamento dilui ao máximo a substância usada, até se tornar imponderável, ou seja, o objetivo é separar a parte tóxica da medicamentosa. Todos eles são preparados em doses mínimas e dinamizadas, e é muito importante que sejam levemente chacoalhados antes do uso, para que as partículas se choquem entre si e com as paredes do frasco, a fim de queo princípio ativo seja despertado e poten-cializado o efeito curativo no paciente. Esse método de provocar o choque entre as partículas do remédio pode ser comparável ao princípio da bomba atômica, em que as partículas também se atritam, antes da explosão.
 
P.daVila: Então a água, que dilui a substância, absorve o princípio ativo do medicamento?
Ana Lúcia: Sim, está comprovado que a água tem memória e grava o princípio ativo do remédio. Ressalto que, para a conservação dos medicamentos, é importante mantê-los em locais distantes de radiações, como aparelhos celulares, computadores, geladeiras e TVs.
 
P.daVila: Quais são os cuidados necessários no uso da Homeopatia em caso de doenças graves?
Ana Lúcia: Como médica, eu acredito que a Medicina deve ser usada com responsabilidade; já atendi pacientes em estado crônico aos quais recomendei a intervenção alopática em hospital, mas eu só faço isso se a situação exigir, e, nesse caso, não deixo de aplicar a Homeopatia, para o paciente reagir à própria Alopatia e recuperar a sua saúde da melhor maneira possível. Todos nós temos limitações e devemos aceitar a nossa condição humana, sempre em busca da superação. Um grande professor meu disse que “a Homeopatia, como ciência médica, teria suas limitações no próprio ser humano, mas a Homeopatia em si não teria limitações”. O médico também tem limitações, por isso deve estudar sempre para aumentar a sua capacidade curativa. E eu uso muito essa concepção quando estou no exercício da minha profissão.
 
P.daVila: Como um paciente que se trata com a Homeopatia pode requisitar o seu médico homeopata no caso de acidente ou internação?
Ana Lúcia: Eu tenho autorização do CRM para medicar os meus pacientes, desde que eles queiram, caso estejam internados ou não em hospitais. Os remédios homeopáticos não anulam a Alopatia, mas o recomendável é que o paciente opte por uma única vertente e não misture os tratamentos. Na Associação Paulista de Homeopatia existem atendimentos, inclusive para pacientes de baixa renda. Mas para montar um hospital é preciso um alto investimento, e não há interesse público ou privado, já que a indústria farmacêutica ainda tem bastante poder.
 
P.daVila: Existem diferentes vertentes na própria Homeopatia?
Ana Lúcia: Sim. Na Homeopatia temos o Unicismo, Alternismo, Pluricismo e Complexismo. Assim como o Dr. Hahnemann, eu procuro seguir o Unicismo, e como tal, procuro prescrever apenas um medicamento de cada vez para abranger a totalidade dos sintomas do paciente. As outras linhas costumam prescrever mais medicamentos a cada situação médica. 
 
P.daVila: Esses cuidados e explicações constam no manual O que você precisa saber sobre o medicamento homeopático e muito mais, de sua autoria?
Ana Lúcia: O objetivo do manual é oferecer e esclarecer aos pacientes e seus familiares fundamentos da Homeopatia e a nossa visão de como o homem adoece e se cura, a relação médico-paciente, e principalmente colocar a importância da auto-observação. Como uma das minhas especialidades é a pediatria, coloquei também questões sobre esse tema, assim como informações simples e práticas em relação aos medicamentos, tratamentos e cuidados que os pacientes devem ter com a saúde.
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