ENTREVISTA
- Edição 134 - Dez/2013
Zaqueu Fogaça

Luis Fernando Verissimo
Filho do cultuado escritor Érico Verissimo (1905-1975), o cronista gaúcho iniciou sua carreira como jornalista, em 1969, e rapidamente experimentou o gênero que o consagraria: a crônica. É um dos mais populares autores da literatura brasileira, criador de obras célebres como “O Analista de Bagé” e “Comédias da Vida Privada”. Conquistou neste ano o prêmio Jabuti, na categoria livro do ano, com a obra “Diálogos Impossíveis”. Nesta entrevista  exclusiva ao Pedaço da Vila, o mestre do humor refinado fala sobre os escritores que o influenciaram, as dificuldades de sobreviver de literatura no Brasil, a paixão pelo futebol, suas desilusões com a política brasileira, e adianta sobre o novo programa do canal pago GNT, “Amor Veríssimo”, inspirado em suas crônicas sobre relacionamentos amorosos
 
 
Pedaço da Vila: De que maneira a escrita entrou em sua vida?
Luis Fernando Verissimo: Eu praticamente me alfabetizei nos Estados Unidos e isso fez com que eu tivesse uma relação muito mais próxima com a literatura norte-americana. A literatura entrou em minha vida de maneira acidental, e comecei a escrever muito tarde, mas sempre fui um grande leitor. Pelo fato de ser filho de um escritor, eu me criei em uma casa em que o livro era muito importante. Eu não me formei em nada e, quando voltei dos Estados Unidos, parei de estudar. Depois de algumas coisas que não deram certo, como as artes plásticas, comecei a estagiar no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, em 1969, e nunca mais parei de escrever. Mas escrever nunca me deu um grande prazer e fazer isso se torna cada vez mais difícil.
 
P.daVila: Por que sobreviver de literatura no Brasil ainda é um privilégio para poucos?
Luis Fernando Verissimo: Antigamente, dois exemplos de escritores que conseguiam sobreviver apenas da literatura eram o baiano Jorge Amado e meu pai, Érico Veríssimo. É uma situação que perdura. No Brasil, hoje, um escritor que vive de literatura é raro, exceto autores como Rubem Fonseca e Paulo Coelho. Embora esteja melhorando, o Brasil é um país em que se lê muito pouco.
 
P.daVila: A obra do senhor acabou se tornando a porta de entrada para muitos jovens ao universo da leitura. O que precisamos fazer para transformar o Brasil em um país de leitores?
Luis Fernando Verissimo: Eu sempre fico muito feliz quando pessoas jovens vêm conversar comigo e dizem que começaram a gostar de ler após a leitura de um dos meus livros. De certa maneira eu colaboro para formar leitores. O grande desafio ainda é transformar a leitura em uma coisa atraente para o público em geral, e especialmente para os jovens. Esse é um trabalho que merece destaque nas escolas. Noto que os professores têm realizado um bom trabalho com relação a isso. Percebo isso quando sou convidado para encontros em escolas pelo país. Temos de mostrar para as crianças que ler é uma coisa muito boa, emocionante. 
 
P.daVila: Recentemente o senhor afirmou que a popularidade de seu pai atrapalhou o olhar crítico sobre a obra dele. De alguma maneira a popularidade do senhor também compromete o olhar crítico sobre sua obra?
Luis Fernando Verissimo: De certa maneira sim. Há um preconceito por parte de pessoas pré-rotuladas, que não conseguem escapar desses rótulos. Sou conhecido como autor de crônicas humorísticas e textos mais leves, mas também escrevo sobre outras coisas que estão distantes do humor, mas fiquei conhecido como humorista, apenas. É um erro acharem que eu tenho que ser sempre assim
 
P.daVila: Com a internet o humor passou a ser explorado com mais liberdade. Para o senhor, o humor tem limites?
Luis Fernando Verissimo: Assunto para o humor sempre existe em um país como o Brasil, principalmente por ser um país sede de contrastes e conflitos. A presença do humor em um texto tem o papel de torná-lo mais atraente aos olhos do leitor. A escrita mais séria é pseudamente profunda. Os limites do humor são determinados por cada humorista. Ninguém deve impor qualquer limite, isso cabe ao próprio humorista, que deve saber escolher o assunto.
 
P.daVila: Sempre que lhe perguntam sobre as dicas que daria a um jovem escritor, o senhor diz: “leiam”. Quais foram as leituras inesquecíveis do jovem Luis Fernando Verissimo?
Luis Fernando Verissimo: Eu sempre li muito os escritores americanos, como Ernest Hemingway e John Dos Passos. Mas no Brasil as minhas leituras sempre foram direcionadas aos cronistas da época clássica do gênero no país, representada por Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Antônio Maria. Entre os romancistas brasileiros, eu sempre gostei muito do Moacyr Scliar e do Rubem Fonseca.
 
P.daVila: Além de ser escritor, o senhor também se arrisca pela música, tocando sax no grupo Jazz 6. Qual a sua relação com a música?
Luis Fernando Verissimo: O meu sax continua em atividade. A música, para mim, é um passa-tempo: faço por puro prazer e não tenho nenhuma pretensão mais séria com ela. 
 
P.daVila: O senhor é apaixonado por futebol e torcedor inveterado do Internacional. Quais são as suas expectativas para a Copa do Mundo de 2014?
Luis Fernando Verissimo: Acho que o Brasil não vai fazer feio, não, quem está fazendo feio hoje é o Internacional, que está em uma fase terrível [risos]. Não sei se o Brasil vai ganhar, mas acho que será uma boa copa.
 
P.daVila: O senhor sempre acompanhou de perto a política brasileira e se diz um petista confesso. O que o senhor tem achado do atual cenário político brasileiro e de seus rumos?
Luis Fernando Verissimo: Acho que hoje eu sou um petista desiludido. Pelo menos temos uma democracia que está funcionando, e isso já é um avanço na política brasileira. Esperávamos que o governo Lula fosse francamente de esquerda, mas isso não aconteceu. Dessa forma, é preferível um governo forte de direita. Tenho certa desilusão com os caminhos que tomamos.
 
P.daVila: Um dos principais temas abordados em suas crônicas é o amor. Após tantos anos investigando esse tema, conseguiu chegar a alguma conclusão?
Luis Fernando Verissimo: Isso é curioso, porque vai estrear um programa na televisão, no canal GNT, que se chama “Amor Verissimo”, inspirado em minhas crônicas sobre o amor. Na verdade eu não sabia que havia escrito tanto sobre o amor, a maioria de minhas crônicas se atenta ao amor se desfazendo e aos casais se separando. Fiquei surpreso de fazerem um programa assim a partir de minhas crônicas, pois sou até meio pessimista com relação ao amor.
 
P.daVila: A crônica se alimenta muito do cotidiano. O que nele o toca a ponto de escrever?
Luis Fernando Verissimo: Eu escrevo sobre a realidade brasileira e certos assuntos que estão em evidência. A gente acaba desenvolvendo certa técnica para escrever, mesmo não tendo assunto. O grande truque é escrever sem ter assunto.
 
P.daVila: O senhor acaba de conquistar o prêmio Jabuti na categoria de melhor livro do ano com o livro Diálogos Impossíveis. Após tantos anos escrevendo e conquistando prêmios, o que isso representa?
Luis Fernando Verissimo: Ele serve como reconhecimento para o trabalho do escritor. Para o ego da gente é muito bom [risos].

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