ENTREVISTA
- Edição 132 - Out/2013
Zaqueu Fogaça

João Anazanello Carrascoza
Pedaço da Vila: Com uma carreira consolidada como contista, você estreia como romancista com o livro “Aos 7 e aos 40”. O que o levou ao romance?
João Anzanello Carrascoza: Enquanto escrevia o livro de contos “Aquela água toda”, percebi que certos personagens transbordavam do espaço exíguo das histórias curtas, assim como algumas situações pediam para ser mais exploradas narrativamente. Senti que era hora de dar voz a elas, retirando-as da condição de pequenos arbustos – como defino os contos – e deixando que se ramificassem, se expandissem numa árvore (o romance), para ocupar uma maior dimensão ficcional.
 
P.daVila: Há uma frase de Carlos Drummond de Andrade pela qual o senhor tem muito apreço, que diz: “A vida cotidiana contém reservas colossais de poesia”. Quais pormenores e cenas do cotidiano o tocam a ponto de escrever sobre elas?
Carrascoza: As coisas mais simples, como o amanhecer (que é sempre uma retomada da vida) junto a um familiar, a partilha de uma refeição, as palavras que vazam de um para o outro em meio ao silêncio, os gestos e olhares que nos permitem ler a história das pessoas.  Enfim, é nos eventos menores, cotidianos, que podemos encontrar riquezas inesperadas. 
 
P.daVila: Em suas obras, você gosta de manipular uma narrativa pontuada pela ação do tempo, reminiscências das personagens. O tempo é um elemento de partida para sua literatura? Por que essa predileção pelo tempo?
Carrascoza: O tempo é o grande protagonista porque, queiramos ou não, guia o destino de todos os personagens, não apenas os meus. Como se dá no romance “Aos 7 e aos 40”, o passado segue no presente das pessoas, e, conforme elas vão alcançando o futuro, o passado se transfigura, se reorienta, se altera com as novas experiências. 
 
P.daVila: O senhor já declarou que procura resgatar, em suas obras, o reencanto do ser humano pelo mundo. Para o senhor, a que se credita tanto desencanto?
Carrascoza: O estado de encantamento só existe porque é raro, porque se esconde nas dobras da rotina, e é preciso abrir os olhos dos nossos olhos para descobri-lo. Em simultâneo, podemos encontrar, a qualquer momento, no desencanto diário, a possibilidade de nos reencantarmos. 
 
P daVila: Em “Aos 7 e aos 40” transparece uma dor melancólica no ritual de passagem da infância para a vida adulta. O que se perde e o que se ganha nessa transição?
Carrascoza: Se ganha a vida que passamos a ter, instante a instante, no presente. Perde-se a vida que tivemos, mas que, pelo mecanismo milagroso da memória, podemos evocar a qualquer hora. Recordar é uma maneira de reler a nossa vida e de reescrevê-la com nova tinta.
 
P.daVila: Um dos elementos que mobilizam sua literatura é o hiato entre as falas, a incomunicabilidade que se faz predominante. O que o fascina nessa ausência da palavra e por que prefere esse recurso?
Carrascoza: Fascina-me perceber que dizemos muitas coisas sem dizer uma só palavra. Há outras linguagens que complementam, iluminam ou desmentem os nossos dizeres. O incomunicável se dá, invariavelmente, no campo daquilo que é verbalizado, mas não na esfera do não-dito ou em concílio com outras formas de comunicação.

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