ENTREVISTA
- Edição 132 - Out/2013
Da Redação

Francisco José Zorzenon
Biólogo e pesquisador científico especializado em entomologia urbana, ele é mestre em fitossanidade e diretor da Unidade Laboratorial de Referência em Pragas Urbanas, do Instituto Biológico. Com mais de 20 anos de experiência em animais sinantrópicos, nosso entrevistado fala sobre sua proliferação, os males que causam e indica os principais métodos para combater esses visitantes indesejados
 
Pedaço da Vila: O que são pragas urbanas?
Francisco José Zorzenon: Quando falamos sobre pragas urbanas não nos referimos somente aos insetos, como cupins, moscas ou baratas. Existe uma série de organismos que também são considerados pragas. Há, por exemplo, os insetos xilófagos, que se alimentam de madeira, como é o caso das brocas e dos cupins; os vetores, que são transmissores de doenças direta ou indiretamente, como os ratos e pombos; os insetos rasteiros, como as formigas, traças e baratas; e também os insetos voadores, entre eles, as moscas. Existem ainda os animais que são protegidos por lei e não podem ser mortos; mas já existe uma portaria que permite o rema-nejamento dessas pragas que apresentam índice de periculosidade à saúde, como é o caso dos morcegos e pombos. Ocorre também que alguns animais ganham status de praga com o passar dos anos, como é o caso da capivara, cujo carrapato transmite a febre maculosa,  fatal para o ser humano. E, atualmente, a maritaca pode ser considerada praga urbana, pois podem danificar fios elétricos. Praga urbana é isso: de uma forma ou de outra, ela traz algum pro-blema à população, seja econômico ou de saúde.
 
P.daVila: Elas são parte da vida urbana?
Zorzenon: Ela existe em todo lugar e é um problema que vem desde os primórdios da civilização humana. Na verdade, esses insetos e outros animais, que chamamos de animais sinantrópicos, vivem junto do homem. O cupim de madeira seca, por exemplo, não é encontrado, normalmente, na natureza, somente em áreas urbanas, assim também se dá com algumas espécies de formigas. Há animais que são transmissores de doenças ou causam algum tipo de problema financeiro, como é o caso dos cupins, que destroem as casas. Já outros são transmissores indiretos de doenças, como os pombos, que transmitem doenças por meio de suas fezes. Outra praga é o mosquito, que, ao mesmo tempo em que transmite doença, também perturba o sono. 
 
P.daVila: O que contribui para sua proliferação? 
Zorzenon: Algumas aves, por exemplo, podem comer os siriris ou aleluias (reprodutores dos cupins alados), mas não há nada específico. Quem é o predador da praga urbana? O controlador de praga urbana. Em áreas urbanizadas temos uma fauna extremamente reduzida. Na natureza, por exemplo, existem inúmeros predadores, aqui vivemos em total desequilíbrio e com tudo à disposição das pragas, como água, lixo e principalmente a fartura de alimentos. 
 
P.daVila: As pragas são consideradas um problema grave de saúde pública?
Zorzenon: É um problema de saúde por causa dos vetores, como o rato, o pombo, o Aedes aegypti e o Culex, que é um mosquito muito comum. Para nós, que vivemos no Sudeste, o Culex não causa grandes problemas, além do incômodo. Mas no Nordeste, é ele quem transmite a filariose, causadora da elefantíase. O Aedes, aqui, é o transmissor da dengue. A própria formiga representa um problema à saúde por ser um vetor mecânico de doenças. Muitas pessoas acham que sua presença em açucareiro não representa perigo; pelo contrá-rio, ela pode ter estado em um lixo antes de ir parar no açucareiro. A formiga também pode ser a responsável pela trans-missão das infecções hospitalares, é ela quem leva uma doença de um paciente para outro.  Outro que representa risco é o barbeiro, que costumamos pensar que existe apenas no interior e no litoral, mas que também pode estar no ambiente urbano. Já o rato pode transmitir a leptos-pirose, através de sua urina; e o pombo, histoplasmose, por meio de suas fezes.
 
P.daVila: Como detectar a existência de pragas em casa? 
Zorzenon: Existem alguns sintomas que se tornam visíveis. O cupim de madeira seca deixa um pó granuloso na peça de madeira; se for uma broca, o pó é bem mais fino. O cupim subterrâneo deixa cordões de terra pelas paredes. A traça sempre aparece em papéis, revistas, livros ou jornais.  Já as traças de roupas se notam em perfurações em regiões em que as pessoas suam bastante, como mangas e colarinhos. A presença de ratos se percebe por meio das fezes que eles deixam no ambiente e em manchas de gordura pelas paredes, onde caminham; o mesmo se dá com relação à barata, com a presença de fezes no ambiente e roeduras nos alimentos. Acontece que algumas pragas são mais toleráveis pelas pessoas, como é o caso da formiga, que traz mais doenças do que a barata.
 
P.daVila: Qual é a maneira para combatê-las? 
Zorzenon: Para viver e proliferar, as pragas
 precisam de quatro “As”: o primeiro é o abrigo; o segundo é o alimento; o terceiro é a água; e o quarto, o acesso.  Se faltar um deles, elas não terão êxito.  Um exemplo recente e público relacionado a essa facilitação foi aquele caso de supermercados não fornecerem sacolas plásticas aos clientes. No lugar delas, muitas pessoas levavam caixas de papelão para casa. Com isso, aumentou a proliferação de traças, pois as pessoas levavam as caixas infestadas de pragas para dentro de casa. Isso é muito comum de acontecer com objetos eletrônicos como computadores, que são levados para casa contendo traças, baratas e formigas. Outro exemplo a que devemos nos atentar são as migalhas de comidas deixadas no chão da casa, que devem ser evitadas. Para nós, elas não passam de migalhas, mas para os insetos são um banquete.
 
P.daVila: Entre produtos químicos e naturais, quais são os mais adequados? 
Zorzenon: Quando a gente fala em produto natural, não quer dizer que ele seja totalmente atóxico. Ele pode ser bom para determinada praga, mas para outras não. A principal coisa é fazer uma limpeza no ambiente e evitar que ela se instale. Aqui, no Instituto Biológico, trabalhamos com todas as vertentes, tanto produtos químicos quanto naturais, como óleos essenciais, extratos aquosos, entre outros. Mas o que funciona para um pode não funcionar para outro. Se a manifestação da praga for branda, isso possibilita que a própria pessoa faça a reparação sem que cause um maior impacto ambiental e à saúde. Os produtos utilizados têm que ser domissanitários, registrados para a área urbana, e preferencialmente de menor toxicidade. Para combater a lava-pés (formiga avermelhada) pode ser utilizado o cravo-da- índia. O pó de café, em infusão a frio, por exemplo, pode resolver o problema de pulgão em palmeiras. Para repelir as traças existem produtos como as folhas de louro. Para cupim, realizamos experimentos com óleo de eucalipto e óleo de citronela, aplicando-os dentro das árvores, e funciona, matando o cupim subterrâneo. A citronela é muito boa como repelente, assim como o óleo de laranja, contra os mosquitos. Em testes que realizamos com o óleo de laranja, constatamos que ele mata barata, lagarta, cupim e uma série de pragas. O problema é a falta de informação  quanto à identificação das pragas e a maneira correta de controle. É aconselhável procurar por uma empresa controladora de pragas, quando necessário.
 
P.daVila: Então há uma variedade de cupins?
Zorzenon: Sim, existe o que ataca madeira seca, madeira úmida, grama, entre outros. Em algumas espécies de cupins, as fêmeas, chamadas rainhas, chegam a durar 40 anos, botando até 80 mil ovos por dia. O cupim mais perigoso é o subterrâneo, que, ao contrário do que se costuma pensar, não come cimento, apenas abre caminho no cimento para procurar material celulósico, como madeira, papel, papelão, gesso e árvore. Erroneamente chamado de cupim do cimento, do concreto, esse é o mais daninho. A espécie que temos aqui, em São Paulo, é a exótica, introduzida por volta da década de 20, provavelmente por embarcações e na arborização urbana. Essa praga pode infestar a arborização e as edificações urbanas. Há também os cupins nativos, mas, muitas vezes, não são tão problemáticos como os exóticos.
 
P.daVila: E o percevejo-de-cama?
Zorzenon: Nós temos muitos casos de percevejos-de-cama. Está no site do Instituto Biológico uma enquete sobre ele. Com a realização da Copa do Mundo no ano que vem, estamos prevendo um aumento nos casos de percevejo-de-cama. Isso porque, na maior parte dos casos, ele é trazido dos Estados Unidos e da Europa, pelos viajantes, em malas e utencílios. Nos Estados Unidos chegou a um ponto em que, a cada dez hotéis, nove tinham problemas de percevejo de cama. Lá isso é mais comum, mas nós também temos muito, é uma coisa sazonal.  Há épocas do ano em que ocorre uma explosão de determinada praga e, de repente, da mesma forma que ela veio, ela vai embora.
 
P.daVila: Então a praga nasceu e morrerá com a civilização?
Zorzenon: Desde que surgiu a civilização, existem pragas que se aproveitam da situação. Elas se especializaram em viver no ambiente antropizado. Eu, e alguns colegas pesquisadores, estamos no Instituto Biológico há 20 anos, trabalhando com pragas urbanas. Nesse período, constatamos que as pragas têm aumentado muito. Elas acom-panham o aumento da população e das cidades.

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