ENTREVISTA
- Edição 120 - Set/2012
Zaqueu Fogaça

Fábio Lucas
Escritor, ensaísta, teórico da literatura, foi Diretor do Instituto Nacional do Livro em Brasília e da Faculdade Paulistana de Ciências e Letras. Membro das academias Mineira e Paulista de Letras e considerado um dos maiores críticos literários do Brasil, Fábio Lucas lecionou em seis universidades norte-americanas, cinco brasileiras e uma portuguesa. Nesta entrevista, o morador do pedaço fala com excelência sobre o papel da crítica literária, os rumos do ensino de literatura no país e de sua mais nova obra.
 
Pedaço da Vila: Na história da literatura brasileira a crítica literária sempre exerceu um papel fundamental. Como o senhor analisa o ofício da crítica nos dias de hoje? 
Fábio Lucas: Certamente as coisas mudaram muito: os críticos de hoje estão mais retraídos, quase não vemos uma boa crítica nas páginas dos jornais, não existem mais os clássicos rodapés que acompanhavam as extensas análises literárias. Mas temos críticos jovens desempenhando um bom trabalho, como, por exemplo, o Ivan Teixeira, que realizou um ótimo estudo crítico sobre a obra O Alienista, de Machado de Assis. Em sua análise, intitulada Altar e Trono, ele analisou as obras referentes aos estudos psicológicos que o Machado fazia, assim como suas anotações a lápis nas obras. Com esse estudo, o crítico jogou uma nova luz sobre esse texto tão conhecido, que surgiu na época como uma sátira dos costumes psicológicos de então. Da mesma maneira fez outro crítico, Marco Lucchesi, que escreveu um romance quase biográfico sobre o mesmo autor, chamado O Dom do Crime, em que levanta a hipótese de que a obra Dom Casmurro seria fruto da reminiscência de Machado sobre um crime envolvendo adultério ocorrido na elite carioca, o qual agitou a imprensa e a opinião pública do período. Então, quando parecia que tudo  já havia sido dito sobre  Machado de Assis, os dois estudos mostram que não. Esses são apenas dois exemplos de que a crítica literária brasileira está caminhando corretamente, só que agora com a ajuda de novos instrumentos que auxiliam na investigação analítica.
 
P.daVila: Essa mesma qualidade mantida pelos críticos está nos escritores atuais?
F.L: Sim, recentemente tomei contato com dois ótimos autores, um deles é o Luiz Vilela, conhecido apenas por seus contos, mas que ao longo dos anos amadureceu sua narrativa em romances, lidando muito bem com diálogos, diferentes formas textuais, entrelaçando ficção e história, e revelando-se um artista das palavras. Outro escritor de muita qualidade é Francisco de Morais Mendes, pouco conhecido, mas que, assim como Vilela, consegue lidar com muita leveza em suas narrativas. Não há dúvidas de que temos bons escritores, só que muitos deles, infelizmente, ainda continuam desconhecidos dos leitores.
 
P.daVila:  Em uma obra de um jovem autor, qual o processo de avaliação para identificar suas qualidades literárias e descobrir um escritor promissor?
F.L.: É preciso, antes de tudo, ter o conhecimento das estruturas textuais, os gêneros, o modo como essa obra dialoga com o período histórico e social e o quanto ela agrega a ele, e, assim, desenvolver uma análise interpretativa e analítica para fazer o julgamento. Hoje, em decorrência da velocidade e da demanda por publicações, as pessoas preferem ler os poemas curtos, os pequenos contos, mas isso pode revelar-se uma ilusão, uma vez que muitos autores jovens escrevem umas baboseiras e acham que têm qualidade, uma choradeira que acham ser poema.
 
P.daVila: De que maneira se desenvolve o estudo crítico de uma obra? Os conceitos são os mesmos ou mudaram no decorrer dos anos?
F.L.: Os estudos críticos sempre estiveram associados aos fatores históricos e culturais da sociedade e, ao longo dos anos, alteraram-se, acompanhando as mudanças desses fatores estruturais. Houve um momento em que a crítica literária brasileira tinha como princípio a análise estruturalista, na qual o crítico se embasava apenas nos elementos linguísticos existentes numa obra, principalmente nos erros grama-ticais. Caso contrário, a análise sofria pressão de alguma ciência, como, por exemplo, a Sociologia. Posteriormente, compreendeu-se que a crítica estruturalista não trouxera inovações para o estudo crítico, como também não abrira caminhos que desvendassem as partes ocultas que uma obra resguardava. Então, foi preciso mudar, já que o gramaticalismo do séculos 18 e 19 condenava uma obra, tomando como base apenas os erros de português. 
 
P.daVila: Como o senhor analisa os autores que nascem de novos meios de escrita, como os blogs, e como são recebidos pelo mercado editorial?
F.L.: Não acompanho, mas vejo em toda forma de comunicação escrita um meio importante para desenvolver os textos. Quando estive nos Estados Unidos, visitei algumas maquetes de prédios que seriam construídos e notei que em cada apartamento, por menor que fosse, tinha uma sala planejada para abrigar a biblioteca. Aqui no Brasil isso é uma coisa impensável. Quando Manuel Bandeira completou cinquenta anos, ele já era o poeta mais aplaudido e querido do país, os amigos fizeram uma vaquinha para publicar um de seus livros que ainda estava sem edição, e que saiu com 56 exemplares. Quando Carlos Drummond de Andrade lançou o livro Sentimento do Mundo, a tiragem foi de 150 exemplares. Veja como o mercado editorial mudou; hoje, um escritor iniciante e desconhecido ganha mais de mil exemplares de sua primeira obra, ou seja, os jovens escritores têm mais sorte do que os de antigamente.
 
P.daVila: Existem muitas feiras e festas literárias pelo país. Esses eventos desempenham um papel favorável para a literatura?
F.L.: O que acontece é que essas feiras literárias são dominadas pelos editores; há um monopólio. O que precisa é dar a elas um sentido mais democrático, que abranja mais os autores brasileiros e os leitores. O autor brasileiro continua esquecido pelas editoras, e os editores só enxergam no livro o lado comercial, pois a maior parte deles são negociantes. O que precisamos é de editores inteligentes que invistam na literatura brasileira e reconheçam sua excelente qualidade e diversidade, em grande parte ainda não descoberta.
 
P.daVila: O mercado editorial é dominado por publicações de puro entretenimento, princi-palmente os best-sellers. Como o senhor vê essa demanda editorial tão predominante?
F.L.: Esse tipo de publicação é reflexo de um autor que está olhando apenas para as vendas, deixando de lado a qualificação estética da escrita. A criação literária não é uma atividade utilitária; pois mesmo sem ganhar nada, o escritor cria uma obra, entrega-se a vida inteira pelo simples poder que sua palavra exerce sobre as pessoas e o quanto ela pode agregar ao patrimônio intelectual da huma-nidade. Mas esse outro tipo de obra, meramente comercial, visa apenas um público ingênuo, que gosta de se entreter com certas narrativas, como livros de autoajuda, e até mesmo os romances policiais; narrativas cujos processos são muito previsíveis, não há nenhuma sutileza senão esconder uma chave que vai abrir uma porta no final. Esses livros são frutos de modismos que não conseguem alimentar a capacidade humana de sonhar, de incitar a imaginação. Por outro lado, uma obra-prima sugere ao leitor inúmeros campos de reflexão e questionamentos sobre a trajetória humana, tornando-se sempre atual.
 
P.daVila: A publicação literária brasileira ampliou muito sua diversidade de temas. Isso alterou a atividade da crítica?
F.L.: Essa mudança apresenta-se de maneira muito positiva, pois essa diversidade evidencia que, num país com dimensões territorial e cultural tão vastas, conseguimos preservar a mesma língua, fazendo com que o português básico seja o mesmo do Rio Grande do Sul ao Amazonas, sem que se fracionasse em dialetos, salvo algumas expressões. A produção literária, que antigamente era voltada para o eixo Rio-São Paulo, ganhou novas dimensões e, com elas, novas riquezas. Para o historiador, aumentou a dificuldade, mas para o crítico, que pode escolher uma obra para analisar, não mudou muito. Como os holofotes do mercado editorial estão voltados muito mais para São Paulo e Rio de Janeiro, muitos autores namoram essa ideia de serem reconhecidos nesses dois centros, mas hoje isso está mudando: existem muitos autores que têm suas obras esgotadas antes mesmo de chegarem a essas metrópoles.
 
P.daVila: A obrigatoriedade das obras literárias para o vestibular é algo que suscita muitas controvérsias. Qual sua opinião sobre o assunto?
F.L.: Os jovens são moldados para o vestibular; isso é um erro que fere gravemente o conceito de cultura e literatura das pessoas, erguendo barreiras entre o leitor e a obra. Sem a história, a literatura não chegaria onde está, por isso a obrigatoriedade de um clássico da literatura brasileira é um elemento que impulsiona a divulgação aos jovens leitores. Porém, existe um agravan-te, que são os resumos oferecidos em cursos pré-vesti-bulares, fazendo com que, em vez de ler a obra original, o estudante leia a obra resumida e apresentada com perguntas e respostas pelos professores, o que é um crime!
 
P.daVila: Como o senhor avalia o ensino de literatura no sistema educacional brasileiro?
F.L.: É uma pena que hoje não exista nas escolas brasileiras uma disciplina voltada exclusivamente para o ensino de literatura. O bom entendimento da literatura, da poesia e da ficção ajuda a iluminar o raciocínio do estudante. Esse tema no Brasil é batido e rebatido, o sistema educacional precisa levar a literatura a sério e se desvincular da ideia de que improvisando é possível adquirir resultados surpreendentes, pois não houve nenhuma civilização que se destacou das demais por conta do improviso. A literatura é produto de trabalho intensivo, e sem essa intensificação no ensino não se chegará a lugar algum. Estamos muito presos à tecnologia, mas temos que ter o discernimento de que a ela não é o fim, mas sim o meio, um aparato que colabora com as possibilidades do pensamento, nada mais que isso.
 
P.daVila: O senhor acaba de lançar um novo livro, Peregrinações Amazônicas - História, Mitologia, Literatura. Fale sobre ele.
F.L.: Esse livro é um retrato sensível e seleto sobre uma Amazônia pouco conhecida, detentora de uma natureza exuberante e rica, tanto natural quanto intelectual. A obra apresenta-se quase como um roteiro para quem quiser conhecer essa região pensante, sensível, inteligente, que acolhe escritores, poetas, ficcionistas, historiadores e filósofos de valor inestimável para o conhecimento existencial.
 
P.daVila: Há quanto tempo o senhor mora na Vila Mariana e como se relaciona com o bairro?
F.L.: Moro aqui, no bairro, há mais de 35 anos e, mesmo mudando de endereço, fiz questão de permanecer nele. O que me agrada na Vila Mariana é que ela ainda preserva o aspecto de bairro residencial, mesmo com os traços de vila reduzidos por conta dos conglomerados de prédios. O bom é que faço tudo sem ter que usar o carro, como fazer compras, ir ao cinema, ver uma exposição ou simplesmente caminhar pelo bairro com tranquilidade.

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