ENTREVISTA
- Edição 123 - Dez/2012
Da Redação

Por um mundo melhor

Motivada pela curiosidade de conhecer a África e pelo natural anseio de “mudar o mundo”, a estudante de Engenharia Ambiental Nathália Vegi Bohner decidiu dar um novo curso à sua história e, no primeiro semestre deste ano, juntou-se a universitários de diferentes países em uma excursão com destino a Gana.  A AIESEC, ONG da qual faz parte, organiza – desde o fim da Segunda Guerra Mundial – intercâmbios desse tipo, no intuito de promover a integração entre diferentes culturas e estimular auxílio mútuo. Cada participante executa um trabalho voluntário, mantendo-se no país visitante com verba própria e, geralmente, hospedado em casa de família. A experiência pode ser tão enriquecedora que Nathália já foi duas vezes viajar com a ONG: primeiro para o Panamá; agora, para Gana. Uma experiência que vale ser relatada, a seguir:

P.daVila: Como conheceu o trabalho da AIESEC e por que decidiu viajar com eles para Gana?

Nathália Vegi Bohner: Eu conheci a AIESEC por meio de um amigo da universidade e resolvi pesquisar mais sobre do que se tratava. Como gostei do trabalho deles, me inscrevi no processo seletivo e, aprovada, comecei a trabalhar na organização, no escritório de Sorocaba. Depois de um pouco mais de um ano, resolvi fazer um intercâmbio: em dezembro do ano passado fui pro Panamá, ficando 3 meses pela AIESEC e, depois, mais 4 meses por conta própria. Durante os 7 meses trabalhei em uma ONG chamada Ciudad del Niño (www.ciudaddelnino.org). Este ano, no dia 17 de setembro, fui para Gana. Escolhi o país por três motivos: primeiro, porque sempre quis conhecer a África, ver como era a realidade deles e tentar ajudar de alguma forma. Em segundo lugar, estava buscando um país onde falam inglês, para praticar o idioma, e, dentre todas as opções, escolhi Gana porque gostei do projeto que estavam desenvolvendo aqui (www.plightofthechild.org/).

Pedaço da Vila: Onde você vivia e quais foram as dificuldades?

N.V.B.: Eu vivi em uma pequena comunidade chamada AdadeKrom, que fica a quarenta minutos de Nkawkaw. Quando precisávamos comprar algo, era necessário pegar o troto (espécie de van, o transporte mais comum em Gana) e ir até essa cidade.  Não há saneamento básico, água encanada e, mesmo assim, morei na melhor casa da comunidade, com um banheiro particular e energia elétrica — apesar de todos os dias, e várias vezes ao dia, acabar a luz.

Eram nove pessoas na casa, mas algumas só apareciam no final de semana. As moradias são simples, muitas com um cômodo apenas. Na escola existe só o curso primário e um grande problema é a falta de professores e funcionários (são os próprios alunos responsáveis pela limpeza do ambiente). Em função da falta de energia elétrica no local, as aulas começam às 8h e vão até as 14h – quando a temperatura está bem alta e o céu já acumula as nuvens que resultarão em chuva forte no fim da tarde. Tive dificuldade em lidar com o método de ensino. Lá, é supercomum que os professores agridam o aluno com uma vareta, em caso de desobediência ou, simplesmente, pelo fato de ele não ter aprendido o que foi dito. Apesar de reforçar que no Brasil isso acarreta punições ao agressor e que pode haver outras maneiras de ensinar, eles não me deram ouvidos.

P.daVila: Como era a sua rotina?

N.V.B.: Acordava às 6h40, tomava um café reforçado e caminhava até a escola. No caminho, atravessava um lixão a céu aberto.  Depois da aula, voltava para casa, almoçava, ajudava nas tarefas do lar e, eventualmente, visitava alguns colegas professores.

P.daVila:  O que achou de mais diferente?

N.V.B.: Gana é totalmente diferente do Brasil: comida, roupas, costumes, tudo! O que mais me chamou a atenção foram as pessoas. É impressionante como elas ajudam umas às outras. Mas o que eu não gostei foi do descaso com o lixo! As pessoas jogam o lixo em qualquer lugar, as ruas são muito sujas e ninguém se importa. Um dia eu estava na rodoviária e tinha um montinho de lixo no chão, no meio da via. A van que eu ia pegar parou com a porta bem no monte — ou seja, para entrar tínhamos que pisar em cima de todo aquele lixo — e ninguém se importou com isso. Outra coisa bem diferente foi o funeral. Fui ao do pai de um dos professores, que se foi com 102 anos. Seu corpo estava todo enfeitado e até passaram brilho nele. O traje que as pessoas usaram para a ocasião era preto ou vermelho, e recebemos adesivos com a foto do falecido para colocar na roupa. Toda a comunidade e as pessoas da sua igreja estavam presentes, era muita gente, e ainda tínhamos que cumprimentar quase todos. Devo ter cumprimentado umas 300 pessoas.  O funeral durou o dia inteiro. As pessoas oram, cantam e dançam. Pode até soar estranho, mas foi o dia mais divertido que tive em Gana.

 

P.daVila: Em algum momento pensou em voltar para o Brasil?

N.V.B.: Pensei em voltar várias vezes, principalmente nas duas primeiras semanas. Foi um choque muito grande, porque não sabia que ia morar na casa de uma família, em uma comunidade. A questão da higiene também foi muito difícil pra mim, porque eu estava receosa quanto à água que eles usam para cozinhar e também quanto à higiene das mãos, porque eles sempre comem com as mãos, mas o problema é que nem todos as lavam bem antes de se alimentarem e, normalmente, compartilhamos o mesmo prato.

P.daVila:  O que acha que deixou em Gana e o que trouxe na bagagem?

N.V.B.: Com certeza deixei amigos e trouxe para casa muitas roupas típicas (risos). Quando se viaja à África, principalmente para um trabalho voluntário, enfrenta-se muitas dificuldades. Mas posso garantir que todas valem a pena; aprendi muito. É bom estar em contato com uma cultura tão diferente e rica: todos os dias comia pratos típicos, vestia roupas típicas; enfim, vivia como eles... E isso não tem preço, é sensacional — muito embora não seja fácil, é preciso estar preparado para enfrentar um mundo tão diferente.

Site da AIESEC: http://www.aiesec.org.br/


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