ENTREVISTA
- Edição 130 - Ago/2013
Denise Delfim

Entrevista - Eli Corrêa
Aos 61 anos de idade e quase 43 anos de rádio, nosso entrevistado trabalha com muita alegria e satisfação. “Não me lembro de um dia da minha vida em que eu tenha ido trabalhar sem vontade!” Há seis anos, o comunicador da rádio Capital tem escritório na  Av. Cons. Rodrigues Alves e se diz apaixonado pelo bairro. “A Vila Mariana é um bairro agradável, e gosto principalmente das pessoas”. A seguir, ele conta a trajetória que o fez líder de audiência na rádio AM, em seu horário.
 
P.daVila: Como o senhor tornou-se locutor? 
Eli Corrêa: Quando tinha nove anos e cursava o terceiro ano primário, fiz uma leitura em sala de aula e meu professor, Luiz Fabretti, pediu para que as outras crianças me aplaudissem e disse: “Quando você crescer pode virar locutor. Você tem uma ótima entonação e respeita as pontuações!”. E eu me foquei no conselho dele e comecei a me imaginar desde esse dia sendo um locutor de rádio. Eu morava em Sertaneja, no Paraná, cercado por uma zona rural. Lembro-me que quando ia buscar leite, já treinava : caminhava falando sozinho, ensaiando uma locução inspirada no que eu ouvia no rádio;  quando passava alguém eu disfarçava.
 
P.daVila: E já começou a trabalhar com a voz?
E.C.: Meu primeiro trabalho foi nas Casas Pernambucanas. Naquele tempo a lei não permitia que menores de quatorze anos trabalhassem, porém eu consegui o emprego. Ali tinha um serviço de alto-falante para anunciar os produtos. Eu sempre paquerava o alto-falante, olhava para ele com muita paixão, sonhava com ele... Certa vez a pessoa que anunciava os produtos no auto-falante faltou, e eu pedi para substituí-lo. Era um jeep que percorria sítios e fazendas anunciando os produtos, e o motorista permitiu que eu assumisse o alto-falante sob a condição de não contar para ninguém na loja. Nessa época eu estava com quatorze anos, e o motorista do jeep me apoiou, dizendo que eu tinha talento para a locução, A partir daí eu passei a ser  o locutor da loja.
 
P.da Vila: Voltou a reencontrar o professor depois de famoso?
E.C.: Eu o revi uma vez, quando estava de passagem pela cidade, mas não sei por que tive vergonha de falar com ele. Há algum tempo soube que o professor faleceu. No tempo em que ele me aconselhou a ser locutor, professor era muito respeitado, uma autoridade.
 
PdaVila: E o senhor continuou em Sertaneja?
E.C.: Não, eu me mudei para Barra Bonita, no interior de São Paulo, em 1968. E nessa época novamente fui agraciado por uma professora. Um aluno ia recitar um poema e ficou doente. Ela bateu de classe em classe perguntando quem poderia substituí-lo. A reação dos meus colegas de classe foi imediata: todos apontaram para mim. Eu aceitei o convite, recitei o poema e fui aplaudido. A professora reforçou o que o outro professor havia me dito e me apresentou para o pessoal da rádio da cidade, a Rádio da Barra, que existe até hoje. Fiz um teste e passei. Em seguida, eu fiz um outro teste, agora na Rádio Jauense, e comecei a trabalhar.
Cheguei a São Paulo em 1972. E foi nessa época que eu tive uma projeção profissional maior.
 
P.daVila: Sempre comandando os programas?
E.C.: Sim! Chamavam “A sua carta vale música” e “O sucesso que você pediu”. Comecei na Rádio São Paulo, que era especializada em novelas, que por sua vez estava fazendo a migração para a TV — que começava a despontar no setor de novelas, enquanto no rádio já estava sucumbindo . O rádio estava introduzindo uma nova programação para continuar vivo e com audiência. Comandava nas madrugadas o programa “A sua carta vale música”, baseado em músicas.  A programação FM  de hoje é o que eu fazia naquela época. Só que meu estilo era diferente, pois era moleque e tinha uma personalidade alegre. Estava deslumbrado por estar em São Paulo, com 18 anos, e fazendo aquilo de que eu gostava. E, por incrível que pareça, consegui subir a audiência na madrugada. Naquele tempo, o rádio era mais pesado, sisudo, a programação era muito séria e parecida, e eu me destaquei no meio da programação séria, como um radialista que ninguém imaginava que fosse dar certo, com um estilo alegre e maroto.
 
P.daVila: Quando surgiu o bordão “Oi, gente”?
E.C.: Eu já tinha tido uns insights para a criação de um bordão, mas no começo era “Alô, ouvintes”, de que eu nunca gostei. Pensei: “preciso lapidar essa saudação e transformá-la em algo oficial”. Então comecei a me dirigir às pessoas de uma forma coletiva, dizendo: “Oi, Gente” — mas não era ainda do jeito que se tornou minha marca registrada. Certo dia, eu fui fazer um show que se chamava “Show da Leninha com Eli Corrêa”. E o profissional que escreveu o script  do show inseriu o bordão. Eu questionei o porquê e ele me disse que eu já era conhecido assim. Nessa época, além dos shows, eu apresentava circos, que eram muito comuns na cidade, pois cada semana eles percorriam um bairro, e espetáculos de forró. Esse “Oi, Gente” começou a ficar popular com as crianças e  resolvi esticá-lo. Pensei: “Qual é o maior representante da alegria? É o gol!”. A partir desse momento eu me inspirei no grito de gol para me dirigir às pessoas por meio do “Oi, Gente”. Ele é bem parecido com o “Goool!”. E virou a minha identificação .
 
P.daVila: Quando o senhor tornou-se o produtor do seu programa?
E.C.: Isso aconteceu em 1979 e foi um desafio. Foi uma nova fase da minha vida, pois eu abandonei as madrugadas para assumir um programa às 13h, sempre ao vivo. Eu resolvi arriscar novamente e inseri música sertaneja. O nome do programa era “Boa tarde sertão”. Os diretores da rádio acharam uma loucura a minha ideia e tinham certeza de que não daria certo, pois o gênero sertanejo não era tão popular e só era tocado durante as madrugadas. Dentro do “Boa tarde sertão”, eu também criei um quadro chamado “Que saudades de você!”, no qual eu contava a história das pessoas. Esse quadro virou um sucesso de audiência. As pessoas se emocionavam, comentavam, pediam para repetir as histórias, e ele dura até hoje. É a maior audiência do rádio AM. Apresentar o programa na hora do almoço me fortaleceu profissionalmente, pois no mundo inteiro esse é o horário de declínio de audiência no rádio, e é quando na TV começa a subir,  paulatinamente, até à noite, quando chega ao seu auge. Esse meu programa na hora do almoço foi considerado um fato raro, um fenômeno de audiência. Creio que outro motivo favorável para o meu sucesso foi que, no final dos anos 1970, a frequência FM começou a crescer, e eu já não tinha mais aquele espaço musical devido à qualidade do som.
 
P.daVila: E o que o senhor fez para continuar na liderança?
E.C.: Coloquei repórteres nas ruas para dar informações e prestar serviços úteis à população. Os horários das progra-mações eram bem definidos, e nesses horários não existiam boletins de notícias. O meu programa a partir de então começou a englobar variedades. Tinha a “Hora da saudade”, o momento de tocar músicas e a parte de notícias e utilidade pública. Outro fator que também tornou o horário popular foi acrescentar o meu lado religioso à programação. Como eu sempre fui uma pessoa muito devota, passei a fazer a Oração de Nossa Senhora Aparecida com os meus ouvintes. Optei por um momento de fé sem a participação de padres ou religiosos, e os meus ouvintes ficaram ainda mais fiéis. Parece heresia o que eu vou falar, mas a devoção a Santo Expedito nasceu em nosso programa. Santo Expedito não era muito conhecido, apesar de ser patrono da polícia militar. Quando um ouvinte me escreveu falando dele, eu até achei que ele havia se confundido com São Benedito. Depois eu pesquisei e vi que era Santo Expedito mesmo, que me cativou pelo fato de ser “o santo da última hora”, “aquele que não deixa para depois”. Isso me chamou a atenção e nós promovemos o encontro com Santo Expedito. No começo dos anos 1980 poucas pessoas participavam, mas a cada ano aumentava o número de devotos, até que a igreja não comportava mais a multidão, e as festas  passaram a serem feitas no Pátio da Polícia Militar, onde cabiam mais de 5 mil pessoas. Até o Palmeiras abraçou o santo, e atualmente, depois de Nossa Senhora Aparecida e São Judas, ele é o grande santo de São Paulo. Eu tenho uma grande satisfação de ter participado dessa divulgação. E os ouvintes passaram a compartilhar desse momento de fé dando testemunhos sobre as graças alcançadas; algo bem simples, mas emocionante. Essa minha característica de apresentar um programa com tantas variedades  trouxe a gratificação de ser acompanhado por centenas ouvintes que me prestigiam com o 1º lugar na audiência, no meu horário, inde-pendentemente da rádio onde eu estiver. 
 
P.daVila: Seu programa ajuda muita gente...
E.C.: Com certeza ajudou, e me surpreendeu a força que um comunicador pode ter! Eu nunca acreditei e nem passava pela minha cabeça que pudesse ajudar pessoas em situações difíceis. Isso começou no final da década de 1970: uma mãe chegou com uma criança portadora de um tumor no cérebro. Ela me disse que o filho precisava fazer uma cirurgia no Hospital Albert Einstein e teria um custo muito alto, que ela não poderia arcar. Eu perguntei como poderia ajudá-la e ela me pediu que lesse uma carta no ar, pedindo auxílio para a direção do Einstein. Eu respondi para ela que esse esforço seria em vão, pois esses diretores nem sabiam quem eu era e eu não teria essa força para interceder pela criança. “Eu não sou ninguém, imagina que o presidente do Einstein sabe quem é Eli Corrêa!”, disse para ela. Ela insistiu e me falou que tinha muita fé que eu poderia ajudá-la desse jeito. Muito cético, eu atendi ao pedido e fiz a solicitação. Inacreditavelmente, depois de duas semanas, eu recebi uma resposta do setor social do hospital autorizando a cirurgia na cabeça do menino! Foi uma surpresa saber que o programa tinha tanta força para auxiliar os necessitados! A partir daí eu decidi que, se alguém precisasse de um auxílio, eu tentaria ajudar, e isso culminou numa grande prestação de serviços por meio do programa. Certo dia, eu estava nos corredores da Globo e me avisaram que tinha uma mãe desesperada. Eu pedi para ela esperar um pouco, pois estava muito ocupado. Precisei ir à outra instalação da rádio e cruzei com a mãe e a filhinha no colo. A criança estava tão doentinha, que me deixou penalizado. A mãe me contou que a criança tinha sofrido um acidente doméstico brincando com fogo e álcool.  Imediatamente eu chamei a mãe para falar no ar e entrei em contato com os médicos que tratam de defeitos na face, e eles aceitaram atendê-la prontamente. A menina foi para o consultório no carro da rádio. O médico falou que o caso dela era urgente. Depois dessa história, eu passei a intensificar esse tipo de serviço, pois vi que era possível realizar. Para terminar essa história, certa vez eu  estava apresentando um show em São Miguel Paulista e uma moça bonita, acompanhada por uma senhora, subiu no palco para me entregar uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Eu agradeci e questionei a razão de ser presenteado. A senhora se identificou revelando que a moça bonita era a menina do acidente com fogo! Esse foi um caso que me marcou muito e me incentivou a fazer esse serviço social. Apesar de conseguir ajudar, esse trabalho também desgasta, pois não dá para resolver todos os problemas que chegam ao programa... Mas eu entendi que muitas vezes você não pode dizer não antes de tentar. O nosso programa já conseguiu angariar 20 mil cadeiras de rodas por meio de doações, em 20 anos!

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