ENTREVISTA
- Edição 129 - Jul/2013
Zaqueu Fogaça

Renato Rovai
O mestre em comunicação, jornalista e editor da revista Fórum, é requisitado frequentemente a participar de palestras e debates para explicar as recentes manifestações que tomaram as ruas de todo o país. A seguir, nosso entrevistado fala sobre a nova consciência política, sobre a insatisfação coletiva,  discute suas consequências, e analisa a relação Estado-sociedade dentro da nova era informacional
 
Pedaço da Vila: A população foi às ruas para protestar. É um momento histórico?
Renato Rovai: Sim, porque o Brasil nunca viveu um momento de manifestação de rua tão espontâneo quanto esse. É a primeira vez que a população vai à rua sem ter por trás um movimento organizado. Independentemente do que irá resultar, isso por si só já caracteriza esse momento como histórico. 
 
P.daVila: O que caracteriza essa transição de valores e de sistema?
R.R.: Estamos vivendo uma mudança de era. E não é somente no Brasil, mas no planeta. Estamos deixando uma era industrial para nos firmar na era informacional. Hoje já é prevalente a informação, os produtos são realizados mais no computador, ou na lógica da sociedade da informação, do que na dinâmica do pacto da fábrica, do sistema industrial. E, de alguma forma, atinge todos os setores da sociedade, incluindo as dinâmicas políticas e culturais. A forma como essas manifestações estão acontecendo hoje, e as características que elas têm, guardam relações com esse momento.
 
P.daVila: Os jovens provaram que não são despolitizados. Como irão influenciar as próximas eleições?
R.R.: Falar que os jovens não são politizados é errado; pelo contrário. A internet permitiu um debate político de uma maneira muito mais intensa do que em outros tempos. As pessoas estão discutindo política muito mais e acabam se politizando. Evidente que quando entra um universo muito grande de pessoas que têm acesso à política, há ingenuidade, com comportamentos que tendemos a questionar. Mas isso não significa que é despolitização, pode ser uma politização equivocada, às vezes. Acho que agora, com essa grande mobilização, as pessoas irão acordar para isso. Tem uma imensa parcela da população disposta a debater política no Brasil, e que quer, inclusive, se autorrepresentar. Ela quer participar da política, sem necessariamente ficar refém do debate político partidário.
 
P.daVila: O principal meio de organização dos jovens tem sido a internet, especialmente as redes sociais, como facebook e twitter. Quanto as redes são deter-minantes para os manifestos e qual a sua força?
R.R.: Hoje, as pessoas estão em contato muito maior do que há algum tempo, em função dessas novas tecnologias da informação. Aquele garoto tímido que ficava em casa e não se relacionava com ninguém, mesmo sendo assim, tem, às vezes, uma relação de mil pessoas a partir das redes sociais, por exemplo. Então, é muito mais fácil você construir dinâmicas coletivas a partir dessas tecnologias do que há algum tempo. Os movimentos não passam mais por mediadores. Eles podem ser realizados de forma direta. Isso tem mudado muito o alcance de tudo o que está sendo realizado.
 
P.daVila: Quando surgiram esses grupos que estão convocando as manifestações e quem são eles?
R.R.: São movimentos distintos. O Movimento Passe Livre (MPL) é bem diferente do Anonymous. O MPL é, inclusive, um movimento bastante analógico e não tem uma relação muito ativa nas redes sociais. Eles cons-truíram o movimento de forma analógica, foram às ruas, mas quando houve a violência policial as pessoas que foram com eles à rua postaram os vídeos sobre as consequências da ação, e isso transformou aquele movi-mento de caráter mais analógico num movimento, também, de redes digitais. Já o Anonymous é, fundamen-talmente, um movimento digital. Alguns deles parti-cipam das ruas, alguns poucos com aquela máscara do Anonymous e outros, muitos, sem máscaras— não é uma seita, uma organização tão misteriosa assim. É que as pessoas preferem agir no anonimato. Eles conversam, usam pseudônimos. É outro tipo de militância política contra o poder. Cada lugar abriga muitos grupos diferentes. Não dá para generalizar. Cada grupo tem sua forma de organização, e a internet permite isso.
 
P.daVila: Em uma palestra na USP, o senhor destacou a questão da falência dos sistemas intermediários. O que isso significa?
R.R.: Há uma crise das organizações inter-mediadoras, da mediação em todas as áreas, inclusive na política. Os partidos precisam rever isso e buscar se reinventar, mas talvez isso não seja o suficiente. Todos precisarão pensar em novas formas de se fazer política, construir participação política por outras janelas, e não somente por meio de partidos políticos. Uma das coisas, a meu ver, seria permitir candidaturas avulsas, permitir que o candidato faça campanha avulsa. Isso permite que, por exemplo, metade do legislativo seja eleito pelos mais votados e não por alguma vinculação partidária, e a outra metade, por uma lista política partidária. De alguma forma irá balançar o sistema. 
 
P.daVila: De que maneira se estabelece essa relação rua-rede?
R.R.: Se houver violência policial, quando a mani-festação da rua volta para a rede (internet), seu retorno à rua será muito mais poderoso. Quando houve a violência policial, militar, em todos os lugares em que isso aconteceu, as manifestações aumentaram. Em todo o país aconteceram sete grandes mani-festações, e o ápice foi logo na sequência da violenta ação policial do dia 3 de junho. 
 
P.daVila: Num primeiro momento os manifestantes foram reprimidos, em seguida, isso mudou. O que esse posicionamento pode explicar sobre a relação Estado-sociedade no país?
R.R.: Uma das coisas que deveria se discutir é o fim da polícia militar brasileira. Ficou claro que a polícia militar não consegue atuar mais na nova ordem global. Ela tem uma dinâmica de ação que é contrária aos pro-cessos democráticos, à vida democrática, que implica em pessoas irem às ruas e fechar o trânsito, discutir a qualidade do transporte, a qualidade da educação. Teríamos que ter muito mais uma polícia pacificadora do que uma polícia de combate. Do jeito que a segurança está sendo colocada, iremos viver muitos momentos semelhantes a esse, de conflitos desnecessários. As pessoas não irão deixar as ruas e, se forem agredidas, elas agredirão. Isso ficou claro.
 
P.daVila: O senhor afirma que ruas deixaram de ser palco somente da esquerda para, também, serem disputadas pela direita. De que maneira se dá esse embate e o que isso representa?
R.R.: Já ficou claro que haverá uma disputa pela rua e na rua. Inclusive, muitas pessoas ficaram assustadas com possíveis golpes. Não percebi essa possibilidade tão latente. Agora, as ruas estão sendo disputadas por diferentes grupos. As pessoas querem ir para a rua e fazer política. Quem está nas redes se sente no direito de estar nas ruas.
 
P.daVila: É possível estabelecer um paralelo entre as manifestações pelo mundo, como a Primavera Árabe, por exemplo?
R.R.: Todas essas manifestações recentes, essas rebeliões, todos os movimentos têm uma relação com a possibilidade, hoje, de se articular de forma mais ampla via tecnologia e novas tecnologias. É certo que, se a população do Egito não estivesse conectada, aqueles movimentos não teriam ocorrido. Não teriam ocorrido, também, na Turquia, na Espanha, na Franca, no México, entre outros países. Agora, as razões são muito diferentes em cada um deles. 
 
P.daVila: Em que aspectos as manifestações que acontecem hoje se diferenciam das demais ocorridas na história do Brasil?
R.R.: O fundamental é que desta vez as manifestações não tiveram como protagonistas e organizadores os partidos políticos e os movimentos organizados, como sindicatos. Não precisaram de intermediários, como as anteriores.
 
P.daVila: O senhor diz que não dá para falar em apenas uma manifestação, mas em várias. Quais os perigos envolvidos?
R.R.: Eu acho que as pessoas estão indo às ruas por diferentes causas, em cada lugar as reivindicações são diferentes. Num primeiro momento, a questão das tarifas era o que os unificava. Em cada lugar há um componente que levou as pessoas às ruas. Em Belo Horizonte as pessoas estão nas ruas contra os governos do PSDB e do PSP. Em São Paulo, contra o do Haddad e do Alckmin. Então, havia muitas pautas. Agora, tem um componente comum, que é o serviço público: todas querem melhorias em serviço público e justiça social. Isso é um dado a se levar em consideração. Reclamavam da qualidade da saúde, da educação, do transporte; isso é um componente comum. Essas diversas frentes não representam nenhum perigo.
 
P.daVila: A rede na rua continuará em frente?
R.R.: A tendência é ela esfriar e depois voltar de novo. Esse processo entre rua-rede vai durar um bom tempo. Não dá para afirmar que não haverá novas manifestações e que poderão ser muito maiores. Podem ser menores e depois aumentar. Se acontecer algo muito grave, ela pode ser muito maior. Esse é um movimento que vai fazer parte da nossa história futura. Agora, as pessoas têm muito mais possibilidade de se organizar por meio das redes, e isso serve para tudo. Quebrou o tabu de militantes ficarem no sofá e no facebook. Os sofás estão sendo queimados em praça pública.

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