ENTREVISTA
- Edição 108 - Ago/2011
Zaqueu Fogaça

BUBBY COSTA
Ao longo de seus 35 anos de carreira, o fotógrafo paulistano destaca-se como um dos artistas mais proeminentes da cultura brasileira  ao registrar personalidades e momentos memoráveis da história do país. Com habilidade magistral driblou a censura e captou com rara delicadeza a sensualidade da mulher brasileira para as revistas Status e Playboy. Sua vasta obra integra acervos do Museu Jorge Amado e MAM/SP. Por sua lente irreverente, foram eternizados intelectuais como o escritor Jorge Amado, o poeta Waly Salomão, o ator e diretor Anselmo Duarte, além de modelos famosas quando ainda arriscavam os primeiros passos na carreira. Na entrevista a seguir, o antigo morador da Vila Mariana pontua os momentos marcantes de sua carreira e revela que a tranquilidade do bairro é sua principal fonte de inspiração.
 
Pedaço da Vila: Qual foi seu primeiro contato com a fotografia?
Bubby Costa: Aconteceu quando eu tinha uns 10 ou 12 anos de idade. Foi no clube da represa de Santo Amaro, onde meu pai reunia os amigos para organizar regatas de barcos a vela e fotografar. Meu pai era sócio do Clube Bandeirantes de Fotografia, que naquele tempo era a única referência da arte no Brasil. Os grandes mestres da fotografia, como Thomas Farkas, por exemplo, só surgiram depois. Pela represa, meu pai e os amigos dele desfilavam e miravam suas Roleflex e Leicas para fotografar aquele cenário exuberante. Na minha infância, as crianças não tinham espaço para conversar nas rodas dos adultos, não tinham voz diante dos pais e de seus amigos. Toda vez que tentava expressar minhas opiniões a respeito de um assunto, era impedido de falar. Foi então que percebi que poderia expressar meus olhares sobre o mundo por meio da fotografia, que acabou se tornando minha porta de entrada no mundo da comunicação. Lembro-me de que meu pai mantinha um miniestúdio debaixo da escada, onde guardava seus esquipamentos fotográficos. Teve uma vez que eu peguei sua Roleflex e tirei algumas fotos da filha da empregada para vender para os amigos, no Colégio São Luiz. Foi um sucesso!
 
P.da Vila: Quais foram as referências que o fizeram imprimir um estilo tão particular de fotografar?
B.C.: Como disse, desde cedo vivi rodeado por esse universo criativo dos artistas. Na adolescência, tomei contato com a Vera Cruz e, ali, conheci Anselmo Duarte, Eliane Lage, entre outras pessoas envolvidas com o cinema nacional. Logo em seguida, comecei o trabalho da filmoteca MAM  colando filmes, imediatamente fiquei apaixonado pelo cinema. Era assíduo frequentador do barzinho do MAM, no prédio dos Diários Associados, localizado na Rua Sete de Abril. Meu trabalho na filmoteca me fazia entrar nos filmes; sentia-me parte daquelas imagens deslumbrantes. Lembro-me de que matava aula para ir aos cinemas da Praça da Sé, na boca do lixo. Esse meu namoro com o cinema foi importante para eu criar um olhar cinematográfico nas minhas fotografias.
 
P.daVila: Suas primeiras experiências com a fotografia ocorreram no âmbito familiar e de forma despretensiosa. Quando decidiu tomar a fotografia como uma profissão?
B.C.: Até isso acontecer, percorri um longo caminho para depois retomar a fotografia. Primeiro resolvi ser um cineasta, mas as dificuldades para exercer a profissão levaram-me a escolher a fotografia, cujo curso tinha duração de apenas um ano. Isso me dava maior possibilidade de trabalho. Então, aos 35 anos de idade arrumei as malas e embarquei para os Estados Unidos para estudar na escola Glenn Fishback School of Photography, em Sacramento. Durante os dois anos de curso, fiquei hospedado na casa da minha irmã. Nessa escola, comecei a entender o universo fotográfico, as técnicas de iluminação, composições e técnicas fotográficas para revista, jornal, fotografia de paisagem e retrato. O alto nível do curso trazia profissionais consagrados para aprender as técnicas de laboratório, que eram feitas em preto-e-branco. O curso era muito prático, respirávamos fotografia e, embora a duração do curso fosse de apenas um ano, estudei um ano a mais por conta de um professor que gostou do meu trabalho e pediu que eu ficasse mais. Na minha turma eu era o único aluno que já havia publicado fotos nos jornais da cidade. Ao término do curso, consegui realizar uma exposição no campus da escola, um ensaio que realizei sobre uma peça teatral que tinha como tema a cultura africana. Eu era o único fotógrafo que utilizava o Spot Mitter (medidor de luz) para ler a luz. 
 
P.da Vila: Já pensava nessa época em fotografar mulheres nuas?
B.C.: Ao mirar os olhos pela lente da câmera, mergulho no meu mundo particular. O enquadramento que faço é o limite do meu mundo. Quando retornei ao Brasil, com um pouco mais de 35 anos de idade, entrei em contato com um amigo fotógrafo, para mostrar meu portfólio. Quando ele bateu o olho nas minhas fotos, imediatamente associou meu trabalho ao perfil dos fotógrafos que a Editora Abril estava buscando para suas novas publicações. Então, fui conversar com o Wesley Duke Lee, que, além de um grande amigo, foi um dos maiores artistas do Brasil. Recordo-me que, ao pegar meu portfólio, Wesley ligou rapidamente para o Thomaz Souto Corrêa, na época diretor geral do Grupo Feminino da Editora Abril. No mês seguinte, já estava colaborando em mais de oito revistas da editora. Nesse período, a Abril estava prestes a lançar a revista Pop, uma publicação para retratar o comportamento jovem da época. Comecei aí a fotografar para a Pop, só que na época não havia agentes de modelos, eu ia para as ruas encontrar as mulheres com quem realizaria o ensaio fotográfico. Eu selecionava as meninas que se enquadravam no perfil das modelos das revistas americanas Seventeen e Glamour. Saía numa kombi e pegavas as garotas, para fotografá-las em acampamentos, acendendo fogueira, tomando banho de cachoeira, e outras atividades que estavam na moda entre os jovens.
 
P.da Vila: Como surgiu o convite para criar a primeira revista masculina do Brasil?
B.C.: Saí da Editora Abril depois de receber o convite de Domingo Alzugaray. Ele, ao lado de Luiz Carta, Mino Carta e Fabrício Fasano decidiu sair da Abril para criar sua própria editora, a Editora Três. Já no início, a Editora Três contava com grandes nomes da literatura brasileira, como Ignácio de Loyola Brandão, João Ubaldo Ribeiro e Luiz Fernando Veríssimo. Embora o Ignácio fosse um excelente escritor, ele não tinha a escrita malandra do João Ubaldo para falar de erotismo. Lançada em 1974, a revista Status foi a primeira revista masculina brasileira. A única dificuldade foi o combate constante entre a publicação e a censura, que analisava cada edição para decidir se poderia ou não ser publicada. Na fotografia, eu fazia o jogo das metades: quando mostrava os seios, escondia a bunda, quando mostrava metade da bunda, escondia os seios. Era um jogo de gato e rato com os censores. Foi por isso que parti para o voyeurismo, comecei a explorar os fetiches. Ao notar que uma modelo tinha um corpo de Vamp, fotografava a mulher com cinta-liga e salto alto. Já quando era uma menina delicada, mudava tudo, criava um fetiche em torno da colegial. Eu definia que fetiche poderia explorar por meio da personalidade de cada mulher.
 
P.daVila: Quais os outros macetes que o senhor usou para driblar os censores?
B.C.: Era um embate constante. Uma das práticas muito eficientes para driblar a censura era fotografar as mulheres saindo da água, pois o corpo nu molhado suaviza o impacto da cena. Dessa forma, criei uma maneira de passar pela censura. Até que um dia mandaram uma carta para a diretoria pedindo que eu parasse de fazer molecagem, coisa que jamais faria. Era uma luta... Gilberto Mansur, que era o editor fotográfico da Status, tinha que ir a Brasília todo mês, levando a edição da revista para que os censores avaliassem o conteúdo, antes de ser publicada. Caso a matéria fosse inadequada, o censor marcava um X; em outros casos, apenas riscava o que deveria ser cortado. Eu procurava fotografar com muita sutileza, despertando a sensualidade, que é muito melhor do que o nu explícito. 
 
P.daVila: Nas publicações dos anos 70 e 80, o nu era explorado de forma sensível, sem ser explícito ou vulgar. Por que isso mudou nos dias de hoje?
B.C.:  Os profissionais de hoje possuem muita grana para financiar seus trabalhos, o que leva suas criações para o lado comercial. Pode ver que as fotografias das grandes revistas são quase sempre tiradas pelos mesmos fotógrafos. São publicações caras e sofisticadas, que trabalham exclusivamente com um único fotógrafo. Por essa exposição, eles sãoconhecidos como os maiores fotógrafos do Brasil, mas não são! Os melhores profissionais, em termos de qualidade artística, estão distantes dos holofotes comerciais.
 
P.daVila: E o convite para trabalhar na revista Playboy no Brasil?
B.C.: Ajudei a lançar a Playboy a convite do Fernando de Barros, que foi meu produtor de moda na revista Pop. Ele me chamou para uma reunião na qual comunicou que a Editora Abril estava pensando em lançar a revista e me perguntou se queria ser o fotógrafo principal. Aceitei o convite e começamos a nos encontrar no apartamento dele para criar um boneco da Playboy. Nessas reuniões, selecionávamos as edições da americana, espalhávamos pelo chão da sala e começávamos a recortar as páginas para esboçar a edição brasileira. Assim surgiu a revista masculina mais famosa do país. Naquela época não havia photoshop, tínhamos técnicos que faziam os retoques das fotos no próprio fotolito, era um trabalho árduo. Por conta de registro, no começo não foi possível lançar com o nome Playboy, então lançamos com o nome Homem. 
 
P.daVila: Ao longo de sua carreira, o senhor fotografou mulheres belíssimas. Há alguma que tenha sido marcante, seja pela beleza ou por uma ocasião especial?
B.C.: As situações especiais ocorriam quando as modelos ficavam à vontade, flutuavam na beleza de seu corpo, se envolviam com a criação. Era ótimo quando conseguia deixar as mulheres à vontade. O que me marcou profundamente foi uma foto que fiz da Luiza Brunet para o calendário da empresa Dunlop, que anualmente realizava um calendário e abria para quem quisesse participar. Entrei em contato com a Luiza Brunet para perguntar se ela topava fazer um ensaio para o calendário. Ela estava em Nova York e chegou em São Paulo no mesmo dia, à tarde, indo direto para o meu estúdio, pois estávamos sem tempo — eu tinha que entregar as fotos no dia seguinte, prazo máximo para a inscrição. Para piorar a situação, ela chegou com 40º de febre, passando mal. A foto teria que ser rápida, porque estava muito frio. Lembro-me de que ela estava com os cabelos bem curtos, então eu joguei uma água e a descabelei toda, passei um óleo no corpo dela, esfreguei para esquentá-la — ela estava morrendo de frio... De forma toda improvisada, consegui fazer um filme com dez cliques, só que quando chegou ao nono, ela caiu desmaiada. Mas valeu a pena: para nossa surpresa, ganhamos! Outra que gostei muito de fotografar foi a Vera Fischer, que na época estava fazendo a peça Gata em teto de zinco quente. Parodiando a peça, fiz a “Gata em teto de telha de barro”, um ensaio com ela deitada nua no telhado. Ela era uma mulher que se soltava nos ensaios, topava tudo, uma pessoa que foi muito bom fotografar.
 
P.daVila: Em suas fotos você sempre buscou explorar a sensualidade da mulher de forma sutil. Como criar um olhar sensual sem pender para a vulgaridade?
B.C.: É preciso sensibilidade. Eu, quando fotografo uma mulher, preciso senti-la, preciso cheirá-la antes, para despertar os meus sentidos. Esse contato é importante para chegar a uma delicadeza natural, e fundamental para descobrir facetas para a fotografia, como um ângulo perfeito, um detalhe, uma beleza nova a ser explorada. Essa relação é importante para respeitar os limites que o corpo da mulher nos oferece no ato de fotografar.
 
P.daVila: A beleza regional e mestiça do Brasil sempre foi explorada em seu trabalho. Já era uma tendência da fotografia brasileira ou foi um caminho desbravado pelo senhor?
B.C.: Até hoje é uma particularidade minha. Sempre apreciei a beleza mestiça, a beleza simples da mulher brasileira. O que observo nas fotografias atuais é uma falta de profundidade em suas abordagens. Hoje, não se faz nada que não tenha sido feito anteriormente: as fotografias são iguais em todas as publicações, não vejo algo inovador e criativo. Isso é resultado de pessoas que não conhecem e não sabem o que é a fotografia.
 
P.daVila: Muitos questionam o que mudou na beleza das décadas passadas para a atual. Quais os fatores que impulsionaram essa mudança?
B.C.: Mudou tudo e não mudou nada. A mulher é a mesma, só que agora a exposição dela é muito maior, o acesso a ela é muito mais fácil. Antes o acesso era apenas por revista, hoje é pela televisão, pela internet... Hoje, a mulher aparece em diferentes meios de comunicação ao mesmo tempo. Faz uma novela e, ao mesmo tempo, um ensaio para uma revista, para uma campanha publicitária... É uma exposição sem fim, e isso faz com que as pessoas consumam aquele padrão de beleza, pois a mulher magra é o modelo que vende mais. Meu conceito de beleza é a mulher clássica, como Catherine Deneuve e Ingrid Bergman. É uma beleza inteligente, espontânea. Tem que ser uma mulher magra, sem ser magrela, com estatura média, sem silicone e máscaras de maquiagem: tem que ser natural. 
 
P.daVila: Suas fotografias vão além da imagem em si, conseguem expressar um sentimento por meio da modelo, como ternura, desejo, timidez etc. Como captar esse estado de espírito?
B.C.: A fotografia nada mais é do que a representação da vida, de um estado de espírito. Por ela pude conhecer o lado feminino. As palavras não conseguem expressar a força da fotografia em minha vida; para mim, um ato de relação. Aos meus olhos, a fotografia é a mais fiel relação de amor. 

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