ENTREVISTA
- Edição 103 - Mar/2011
Denise Delfim

SÉRGIO TAMAI

O diretor técnico do Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental (CAISM) foi o entrevistado da edição nº 9, de agosto de 2002. Na época, ele falou sobre dependência de drogas, a depressão, entre outras questões pertinentes. Este mês, o psiquiatra volta às nossas páginas para abordar outros problemas que afetam a população atualmente, como o excesso de tecnologia, o perigo do crack e a ilusão de que apenas com medicamentos é possível ter uma mente sã


P.daVila: O que é uma mente sadia?

Sérgio Tamay: É a pessoa que está satisfeita consigo própria. Obviamente, o nosso dia a dia é bastante estressante, e a pessoa tem que ter a capacidade de lidar com esse estresse. Ter a capacidade de não ficar dominado por ele, partir para outras atividades, ter seus hobbies, seus momentos de lazer. Isso faz com que a pessoa mantenha uma vida saudável. Essa questão da saúde mental não foge à regra da saúde de uma maneira geral. Para você ter uma saúde mental adequada, tem que ter o bom senso para não se deixar dominar por questões de conflito, estresse, exigindo de si próprio mais do que é capaz. Tem que saber reconhecer os limites. São atitudes saudáveis manter exercício físico regular e atividades prazerosas — isso é extremamente importante. Tem gente que vai tirar férias e fica preocupada para onde vai, se vai pegar fila no aeroporto. Ou tem aquela que viaja e fica mais estressada do que quando está trabalhando — o que é um contrassenso. Tem também os que se preocupam se vão perder o lugar no trabalho, ou não conseguem se desconectar dele.

P.daVila: Com celular, notebook etc. o expediente pode durar até 24 horas. Tanta tecnologia mudou a relação com o trabalho?

S.T.: Antigamente era mais fácil saber o limite do trabalho e da vida pessoal. Atualmente, com as novas tecnologias, esse limite não existe, não o delimitamos facilmente. Isso é muito complicado porque as pessoas misturam a vida privada e o trabalho em uma coisa só. Tem muita gente que trabalha em casa e isso exige uma autodisciplina muito grande. A pessoa tem que separar exatamente o que diz respeito à casa e ao trabalho, pois os limites são muito tênues. O estresse é fruto de não conseguirmos discriminar as áreas da vida. Fica tudo em um bolo só. Isso deixa as pessoas confusas e torna a rotina estressante. As pessoas às vezes idealizam o lazer como uma viagem para algum lugar, mas esse lazer pode ser apenas um passeio no parque. Essas quebras de rotina são extremamente eficazes para melhorar o estresse. Na minha opinião, o que tem dificultado muito as pessoas de conseguirem uma boa saúde mental é a não imposição de limites, tanto na rotina, para saber o lugar de cada coisa, como no seu próprio limite, de saber até onde se deve ir. As pessoas idealizam muitas coisas e acabam frustradas...

P.daVila: O sr. indica algum exercício para relaxar a mente?

S.T.: Existem alguns trabalhos nos EUA e na Inglaterra falando do quanto a meditação tem ajudado as pessoas a ficarem mais calmas, mais concentradas. A meditação, na verdade, é você tentar se concentrar em poucas coisas, esvaziar a mente. Isso é uma coisa, mas, de repente, você se imagina em um parque, ou ouve uma música, e isso também ajuda a esvaziar a mente. Tem gente que quando está fazendo uma atividade física fica pensando nos compromissos do dia seguinte. Isso está errado. Se as pessoas puderem, pelo menos meia hora por dia, abster-se dos problemas e relaxar, já vai ajudar bastante. É preciso evitar a hiperestimulação, em todos os sentidos.

P.daVila: As crianças também sofrem com isso?

S.T.: Se pegarmos essa geração atual, percebe-se que a quantidade de informação que a criança recebe é muito maior do que há duas décadas, por exemplo. Há 20 anos não existiam canais de televisão dedicados a crianças, marketing baseado nelas e muitas outras coisas que as influenciam. Uma pesquisa recente mostrou que as crianças até 5 anos sabem usar celular, mas não sabem amarrar os sapatos. Isso já denota essa realidade. Não acredito que a tecnologia seja ruim, mas o importante é como usá-la. Da mesma forma que a criança usa o computador, ela deve ter brinquedos criativos que a estimulem. Acho que selecionar o que as crianças vão assistir na TV também é importante. Os desenhos de hoje em dia são mais violentos e tem um ritmo muito rápido. Isso estimula a ansiedade, por exemplo. Então, cabe a nós estabelecer os limites. Acho que o mais importante é delinear esses limites, ou elas vão acabar sendo levadas por esse ritmo em que vivemos.

P.daVila: Com a vida de hoje, controlar uma criança não ficou mais difícil?

S.T.: De certa forma, esse controle acontece em grande parte na escola. Por isso, os pais têm que estar muito presentes nessa questão e saber o que o filho está aprendendo, conhecer os professores, a instrução pedagógica. As escolas, que antes eram mais focadas em conteúdo e ensinamento de matérias, têm assumido outro papel também: o de formação de caráter. Querendo ou não, a criança fica o maior tempo da vida lá. Contudo, existem momentos importantes durante o dia para cultivar essa formação dentro de casa, o almoço e o jantar, por exemplo. Às vezes fica aquela coisa de cada um chegar em um horário, não se falar direito, comer separado,  e isso é ruim. O jantar é o momento de conversar e cultivar a relação. Nem que seja por pouco tempo, mas valorizar esse momento é necessário. Tem pais que não se importam com isso e, quando dão conta, o filho cresceu e eles nem o reconhecem mais. Embora tenha gente que ache os rituais muito chatos, eles são importantes para se preservar alguns valores. O ritual do jantar serve para isso. Mesmo que a vida seja corrida, é importante arrumar tempo para esses momentos. Não é uma coisa de outro mundo. São hábitos simples que a gente precisa aprender a resgatar. Pode não parecer nada, mas, se fizermos isso todo dia, vamos notar mudanças.

P.daVila: O isolamento de pessoas que se relacionam por computador pode vir a ser uma patologia?

S.T.: Na verdade, as tecnologias estão aí e dependem muito do jeito como as pessoas as utilizam. Uma coisa é estar no facebook para conhecer pessoas de outros lugares, reencontrar amigos do passado e tudo mais; outra coisa é você utilizar esses sites para se isolar. Geralmente, as pessoas que se isolam não procuram ajuda. Para o nosso serviço de ajuda mental, vem gente que descobre algum problema e busca a solução. Essa pessoa isolada pela tecnologia já achou a solução dela. É possível que uma parcela considerável delas tenha problemas mentais, mas não procura ajuda. Um fóbico social tem fobia de se relacionar com pessoas, e, com o computador, consegue. É uma maneira que arruma para lidar com a sua fobia e, assim, consegue compensá-la. Talvez, nunca procure ajuda.

P.daVila: O CAISM ainda recebe usuários de drogas?

S.T.: Sim, temos alguns dependentes. É uma demanda importante, mas que diminuiu no pronto-socorro, na emergência, pois, provavelmente, as pessoas conseguiram atendimento em outro lugar. Há centros mais especializados, alternativas para esse dependente. Nossa região é muito privilegiada, há muitas opções para uma pessoa doente.

P.daVila: Por que o crack tornou-se um problema de saúde pública?

S.T.: Como é uma droga barata, fácil de portar, todo mundo tem acesso. Isso é um grande problema. Cocaína cheirada e inalada tem um grau de absorção na mucosa nasal muito pequeno se comparado ao crack que é fumado. Se você pegar a área de absorção de um pulmão, é do tamanho de uma quadra de tênis. Então, quando você joga uma droga nessa área, ela chega em segundos ao cérebro e causa excitação, bem-estar, aquela coisa toda. O crack tem um pico de ação muito rápido, isso favorece a intoxicação. Além das questões imediatas, os produtos e solventes que são utilizados para fazer o crack acabam intoxicando os neurônios e causam uma série de lesões cerebrais ao longo do tempo. Esses solventes destroem o cérebro. As pessoas param de usar, mas continuam tendo problemas. O crack causa uma série de outros problemas. As drogas sintéticas também prejudicam áreas cerebrais muito nobres, que lidam com a questão de controle-impulso, por exemplo, e que são lesadas com o uso de anfetamínicos. Então, mesmo que a pessoa pare de usar, tem prejuízos depois. Isso acontece também com drogas como o ecstasy e o LSD. Já a maconha de hoje não é igual a das décadas de 60 e 70. Ela sofreu toda uma modificação para aumentar o conteúdo de THC — em até 16 vezes mais! A gente sabe que essa maconha atual, a Skank, pode levar à esquizofrenia — a propensão é maior para os que têm casos na família. O cérebro termina sua maturação entre 15 e 18 anos, e qualquer coisa que interfira nesse processo — maconha, álcool etc. —, acarretará em problemas mais para a frente.

P.daVila: O remédio tornou-se o melhor amigo do homem?

S.T.: Existe aquela questão, que não é verdade, de que o remédio vai ajudar em todas as situações. Aquilo que chamamos de depressão, por exemplo, se você não souber exatamente a causa, o remédio não vai ajudar, não vai ter efeito nenhum. Se você tem uma dor e resolve tomar um analgésico, sem saber por que está com a dor, ela não vai passar. O remédio pode ser benéfico em algumas situações e ruim em outras. Na saúde mental é difícil você discernir exatamente a doença que o paciente tem, mas, com algumas habilidades de avaliação de funções psíquicas, o profissional consegue dar ao paciente o tratamento mais adequado. Tem pessoa que chega para mim já com três opções de remédio que ela viu na internet e fala para eu escolher uma. Esses indivíduos, na maioria das vezes, não precisam de remédio, o problema deles não é para medicamentos. Não é todo mundo que procura um psiquiatra que vai sair com a receita na mão. O indivíduo muitas vezes sabe que não precisa do remédio e vem até a gente para ouvir da nossa boca que o problema é outro — o inconsciente dela sabe disso. O profissional que menos prescreve Rivotril é o psiquiatra, pois, para uma boa avaliação, ele precisa de, no mínimo, 30 a 40 minutos de conversa. Isso contrasta com a prática de médicos de convênios, que atendem os pacientes em 15, 20 minutos — tempo em que é humanamente impossível uma avaliação completa. A questão da saúde mental destoa de outras especialidades porque precisa de mais tempo para entender o problema do paciente. Envolve um vínculo maior. O remédio trata o sintoma, e não a doença. Se a gente for comparar o tamanho da população com o número de psiquiatras, realmente esses profissionais não vão dar conta de atender todos de forma correta. Estima-se que eles não cheguem a 10 mil no país.


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