ENTREVISTA
- Edição 99 - Out/2010
Denise Delfim

ANNA ANITA TARASIEWICZ

A terapeuta de casal e família, formada pela USP, com especialização pelo Instituto Sedes Sapientiae, atende, há 40 anos, em seu consultório na Vila Mariana. Articulista em jornais e revistas, e palestrante em escolas e empresas, é responsável pelo ciclo de palestras gratuito dedicado a Reflexões sobre a Família, na Instituição Lareira (a próxima será dia 21, às 20h, na rua Áurea, 324 – www.lareira.org.br). A seguir, ela fala sobre transtornos mentais infantis, bullying e educação

Pedaço da Vila: Qual é a diferença entre a criança de ontem e a de hoje, ou melhor, da infância antes do computador e depois dele?

Anna Anita Tarasiewicz: O computador, a mídia e a tecnologia em geral foram fatores que mudaram o mundo. As crianças de hoje usam computador, têm telefones celulares, jogam jogos eletrônicos; e não pulam mais amarelinhas nem jogam bola - atividades voltadas para o desenvolvimento das faculdades psicomotoras. Tudo isso caracteriza uma diferença enorme entre o que as crianças faziam antigamente e o que fazem hoje em dia. Minha impressão é a de que nos jogos eletrônicos as crianças desenvolvem mais a atenção, a percepção e o raciocínio, mas muito em detrimento das atividades psicomotoras que as brincadeiras antigas estimulam.

 

P.daVila: E qual a consequência desse processo?

A.T.: Acho que é cedo para avaliarmos. Os jogos eletrônicos desenvolvem a vontade de competir — o que é importante, uma vez que o mundo está cada vez mais competitivo, inclusive no mercado de trabalho. Hoje é difícil se esquivar da competição, essa possibilidade é quase remota. O que me preocupa, e tenho ouvido muito dos pais, é que as crianças passam muitas horas em frente da TV e do computador, ou seja, não gastam energia fazendo atividades físicas. Há crianças que praticam essas atividades na escola, tanto nas aulas normais quanto nas extracur-riculares, porém a brincadeira, que era espontânea, que canalizava a energia, está muito reduzida.

 

P.daVila: O que contribui para a obesidade infantil...

A.T.: Sim, contribui muito, já que as crianças estão muito sedentárias e ficam horas em frente do computador e da TV, comendo e ganhando peso. A dúvida que surge é a seguinte: as crianças estão mais seletivas ou os pais vão pelo caminho do menor esforço? Existe a questão de qualidade alimentar muito ruim: a molecada come muita comida pronta e poucos alimentos saudáveis.

 

P.daVila: Quais são os aspectos negativos dos hábitos infantis, atualmente?

A.T.: O tempo que deveria ser reservado à atividade física é um ponto importante. Além disso, as TVs abertas e a Internet têm uma programação empobrecida de conteúdo educativo, enquanto os jogos e os programas geralmente são muito agressivos e violentos. Os pais trabalham fora e têm pouco tempo para ficar com os filhos e, como consequência, ficam sem um filtro do que seus filhos assistem. Às vezes, eu me questiono se essa questão do bullying que vem acontecendo, isto é, o assédio e a agressividade que estão eclodindo nas escolas, não pode estar associado aos jogos e à programação de TV.

 

P.daVila: Mas o bullying sempre existiu, só que não era rotulado com esse nome...

A.T.: Sim, só que numa escala muito menor, não tão agressiva, ao passo que o bullying é algo violentíssimo. Fiz uma palestra sobre esse tema recentemente em que trouxe uma estatística: segundo pesquisas , por volta de 18% dos jovens que sofrem bullying, tentam o suicídio. É assustador. O bullying sempre ocorre em situação de grande desigualdade, ou seja, a vítima é sempre muito mais fraca, e o

fator agravante disso é a existência de espectadores.

 

P.daVila: Como resolver esse problema?

A.T.: Acho difícil uma solução em curto prazo, pois em virtude do trabalho e de preocupações está havendo uma ausência dos pais na vida dos filhos, motivada pela necessidade de ambos trabalharem para o provimento de uma vida de qualidade. Os pais chegam do serviço e não conversam com os filhos sobre suas rotinas, portanto, quando essa situação de assédio chega aos seus ouvidos, tudo já desandou. A postura das escolas, muitas vezes, é fazer "vistas grossas" e colocar "panos quentes", já que não querem perder alunos e; em geral, não fazem o confronto. Recentemente, tenho visto que algumas escolas estão buscando profissionais e realizando palestras sobre esse tema, no entanto poucos pais comparecem e não têm consciência de que seus filhos podem estar envolvidos tanto na condição de agressor como de vítima.

 

P.daVila: Quando a senhora fala em confronto, o que isso significa?

A.T.: Uma vez que aconteceu a situação, isto é, alguma criança foi assediada ou agredida por outra criança ou por um grupo, os pais da vítima devem confiar em seus filhos, dando total apoio a eles e denunciando imediatamente aos professores e responsáveis pela conduta pedagógica da escola. A partir da comunicação, é fundamental solicitar a convocação da família dos agressores. Os pais dos valentões precisam ser informados e ter noção da gravidade do que eles estão fazendo com o colega, a fim de colocar-lhes um limite. Afinal, o compor-tamento desrespeitoso deles deve ter uma origem: por que acharam que tinham o direito de agredir e subjugar um colega? Ressalto que o papel da escola é fundamental, pois ela precisa trabalhar conceitos que antigamente chamavam-se de "bons costumes". Só assim a vítima terá sua autoestima resgatada.

 

P.da Vila: Qual é o perfil da vítima do bullying?

A.T.: A vítima não é escolhida por acaso, é selecionada a dedo. Muitas vezes trata-se de pessoas em desvantagem física, frágeis, com baixa autoestima, enfim, são pessoas passivas, com dificuldades para reagir e se defender. A marca do bullying é a crueldade e o desequilíbrio de forças.

 

P.daVila: A partir de que idade é possível detectar algum tipo de transtorno na criança?

A.T.: Nas crianças bem pequenas, a partir do momento em que elas têm linguagem. O quadro neurológico, o famoso TDAH - Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade - foi descrito pela primeira vez em 1902 pelo pediatra George Still, é um transtorno neuro-biológico, de origem genética. Depois de adultos, a hiperatividade diminui, mas isso não soluciona o transtorno.Encontramos adolescentes e adultos com esse problema, que pode melhorar através da educação, terapia, escola de qualidade e medicação, enfim um conjunto de ajudas.

 

P.daVila: Como esses transtornos são diagnosticados?

A.T.: Não é por meio de exames médicos, como eletroencefalograma, Raio-X, esses exames não visualizam o transtorno. O diagnóstico é clínico e para se caracterizar um quadro de TDAH,com predomínio da desatenção, existe uma escala de nove comportamentos que são: errar questões facilmente numa prova por desatenção; dificuldades para se concentrar em tarefas ou jogos; às vezes parece que não ouvem quando alguém lhe dirige a palavra; não seguem as instruções e não terminam uma tarefa, inclusive adultos,que já são profissionais - também por falta de atenção -; problemas para organizar atividades, evitar e relutar em fazer tarefas que exigem esforço mental constantes; perda de objetos com freqüência (toda criança pode perder, mas as com TDAH perdem com mais facilidade); distração com estímulos alheios ao que está fazendo, esquecimento de obrigações cotidianas. Para caracterizar esse transtorno é necessário ter pelo menos cinco desses compor-tamentos. Já nos quadros de hiperatividade, são cinco os sintomas e a criança precisa ter pelo menos três deles: agitar mãos e pés ou se remexer na cadeira, levantar-se da cadeira (quando precisa ficar sentado), necessidade de passear o tempo todo - não agüenta uma aula de 45 ou 50 minutos sentada, precisa se movimentar -sobe em lugares altos e perigosos, age o tempo todo com muito vigor, e não gasta energia, nunca se cansa; fala sem parar; e pouco escuta.

 

P.daVila: E quais são os tratamentos?

A.T.: Após um diagnóstico cuidadoso, que pode envolver psicólogos, neurologistas, psiquiatras e fonoaudiólogos, além da ajuda da escola, que hoje está mais preparada para receber esses alunos do que há 20 anos, o tratamento deve ser iniciado e consiste em psicoterapia, prática de atividades que estimulam a parte psicomotora; e muitas vezes de medicamentos, sempre acompanhado de orientação aos pais. Gostaria de frisar que, se na infância não forem tratadas, além dessas crianças terem problemas na escola e durante o seu cotidiano, tornar-se-ão adultos problemáticos, com dificuldades, baixa autoestima, impulsivos e inconvenientes.

 

P.daVila: Hoje em dia as crianças não estão muito protegidas das frustrações?

A.T.: Sim, os pais ficam com medo de frustrar os filhos, de serem autoritários e acabam cedendo muito. Se não têm dinheiro para a compra de um determinado presente, é preciso explicar ao filho até que ele possa entender, para não se tornar um adulto sem limites. Não entendo o porquê de uma criança de seis anos possuir um celular de 500 reais. Temo por crianças que ganham tudo de mão-beijada, achando que isso é uma obrigação de seus pais. Elas, na fase adulta, se tornarão umas ingratas frustradas.

 

P.da Vila: Um quadro de TDAH ou hipera-tividade não tratado na infância; poderia resultar na fase adulta em outro transtorno?

A.T.: Os quadros de transtornos de TDAH têm uma comorbidade muito maior, isto é, pessoas que têm esse transtorno podem sofrer mais freqüentemente de síndrome do pânico, depressão e quadros de bipolaridade.

 

P.da Vila: Existem estudos sobre isso?

A.T.: Sim, cada vez mais, porém as respostas ainda não são conclusivas.


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