ENTREVISTA
- Edição 91 - Fev/2010
Denise Delfim

Cristina Capobianco

A psicanalista, formada pelo Instituto Sedes Sapientiae – Criança e Família - e mestra em psicologia pela PUC SP, trabalhou durante 15 anos em hospitais públicos e lutou por um ambiente mais humano e contra a rigidez do profissional de saúde da pediatria geral. Essa preocupação levou-a a escrever o livro Corpo em off, em que defende mais calor humano no atendimento hospitalar e maior compreensão e atenção dos especialistas em relação a seus pacientes. De seu consultório, com vista para o Instituto Biológico, ela fala sobre sua experiência, os benefícios da arte no processo de tratamento e o universo infantil

Pedaço da Vila: Por que decidiu escrever o livro "O Corpo em Off"?

Cristina Capobianco: Partiu do meu trabalho de mestrado e de toda a experiência desenvolvida em hospitais durante 15 anos. Eu sentia um incômodo muito grande ao perceber que, tanto o médico quanto os psicólogos, nos hospitais públicos principalmente, acabavam restringindo todo seu trabalho dentro do consultório. Então, se uma criança chegasse doente ao hospital, o médico atendia dentro de uma salinha e, se observasse que havia problema psíquico, mandava para um psicólogo da instituição, que fazia o atendimento dentro de outra salinha. Eu percebia que toda a área ao redor do hospital não estava voltada para a cura, mas sim para efetuar a patogenia. Por exemplo, crianças que tinham alguma doença ficavam horas em uma sala de espera fria, chata, sem nada para se distrair. Ficavam sentadinhas no colo da mãe, não tinham um banheiro específico, e não havia nada na arquitetura e no design desse ambiente que pudesse ajudar na cura.

 

P.daVila: A senhora conseguiu fazer alguma coisa para melhorar a situação, na época?

C.C.:Tentei promover um parquinho dentro do hospital, onde as crianças pudessem brincar. São crianças que precisam se liberar um pouco mais, brincar mais. O livro trata um pouquinho disso. Eu vou mostrando casos de como as instituições públicas, como hospitais e ambulatórios, perpetuam muito mais a patogenia do que promovem a cura. Eles estão tão preocupados em como tratar esse ou aquele problema, que não há sequer treinamento para os atendentes e seguranças. Tinha um caso de um menino que sofria de constipação, até mesmo na escola. Ele não aprendia a ler e escrever. Aí eu fui vendo que os próprios pais, muito humildes, eram analfabetos. Um dia a mãe veio, sem graça, me trazer uma prescrição do médico com a receita para a constipação do filho. Na receita, dizia que ele tinha que comer fibras e que precisava beber H2O. Ela não tinha ideia de que isso queria dizer beber muita água, não entendia o que estava escrito! Percebi que o médico estava a milhões de quilômetros daquela família. E que resolver problemas como esse era muito simples.

 

P.daVila: Mas esta sua postura não trazia mal-estar entre seus colegas?

C.C.: Quando eu denunciava isso em reuniões, era um mal-estar muito grande. Era uma dificuldade enorme trabalhar essas coisas em uma equipe multidisciplinar. O poder do médico é tão forte que os pacientes ficam com medo de perguntar as coisas. O psicólogo ou o psicanalista tenta seguir o modelo médico e não pode trabalhar nos hospitais fora do que está instituído - por isso, a dificuldade em aderir coisas novas. O livro mostra isso, destaca alguns casos que nós tentamos trabalhar de acordo com novas ideias, de uma forma mais humana. Lembro-me de outro caso terrível, o de uma mãe que tinha deixado de amamentar o seu bebê havia um mês e ele tinha desenvolvido uma alergia. O médico dizia que ela tinha que voltar a amamentar o filho. Eu questionava aquilo, mas o médico se baseava em uma pesquisa que sugeria anti-depressivos e outras coisas. Às vezes, a proposta médica era de uma ironia que me deixava indignada...

 

P.daVila: E o que a senhora propõe no livro?

C.C.: A atividade arte-clínica. Há algum tempo levei alguns pacientes da Gastropediatria ao Museu de Arte Moderna. Eles tinham a Doença de Crohn e precisavam tomar muita medicação, o que faz com que o corpo inche e desinche, constantemente. Fiz um convênio com o  museu e levava os pacientes no meu carro. Eles adoravam! Viam quadros da Tarsila do Amaral e se identificavam. Foi a forma que consegui para que eles falassem do corpo. Eu senti que, introduzindo a arte, conseguia desconstruir algumas barreiras e fazer o paciente falar mais. Outra experiência foi com algumas crianças com sintoma somático, como a constipação. Eu as levei ao Sesc Pompeia para ver uma exposição do arquiteto e cenógrafo Flávio Império, que morreu de Aids nos anos 80. Eles viram maquetes e esboços e perceberam que não era necessário um desenho perfeito para estar na exposição. Essas crianças viviam com a ideia de perfeição na cabeça, e a exposição as deixava de certa forma indignadas. Aí eu trabalhava essa rigidez delas e mostrava que o desenho também pode passar por fases. Isso fazia com que elas se soltassem, diariamente. As escolas tradicionais, que tem aquele ensino rígido, impõem certas coisas de forma que a criança perde o processo. 

Atualmente, no consultório, quero utilizar ainda mais a arte e estimular o lado direito do cérebro dos meus pacientes.

 

P.daVila: Os problemas das crianças vêm da falta de esclarecimento dos pais?

C.C.: É difícil generalizar, porque há sempre as exceções. Em geral, todos os casos que aparecem no consultório são de crianças com sintomas que apontam, de alguma forma, para algo que está ligado à família - os desejos, as expectativas e as angústias dos pais são passados às crianças. Às vezes, não explicitamente. Não é uma situação para culpar os pais, pois muitas vezes ela não é percebida. A gente está muito mais fixada em uma educação verbal, e acha que isto basta. É muito difícil para uma criança constipada, por exemplo, conseguir mudar alguns hábitos se não trabalharmos também a família. A criança aponta para uma dinâmica familiar que não a ajudou a passar por uma fase determinada da vida. Aprendemos algumas coisas e queremos que a criança assimile e funcione da mesma forma. Mas para ela não funciona! A criança tem seu próprio ritmo, tem que ser respeitada. As escolas têm uma dificuldade muito grande em lidar com a agressividade. Geralmente mandam a criança para o psicólogo e a gente vê que o problema não está nela, mas em algo que acontece no seu entorno. Os pais brigam em casa ou alguma coisa está havendo na própria escola. Por isso, tem que trabalhar com a família, que muitas vezes resiste ao tratamento. Mas é fundamental que eu saiba o que está acontecendo no entorno dessa criança. O que acontece, e muito, são casos de pais que estão se separando e não dizem para a criança. Mesmo assim, ela sente algo ali, alguma coisa que não está sendo dita - e aí ela pode reagir de diversas formas.

 

P.daVila: Falar a verdade é sempre a melhor maneira para se educar uma criança?

C.C.: Essa é uma das dificuldades maiores dos pais. De um lado, a gente tem a impressão de que a verdade tem que ser dita. Mas não é assim! Se os pais estão se separando e é difícil falar isso para a criança, é preciso encontrar formas diferentes para contar. O mais importante é conversar com a criança. Explicar a situação. Não precisamos dizer "nós vamos nos separar". Mas dizer os motivos para tal desfecho. É a mesma coisa de um médico que fala "você tem câncer e vai morrer daqui a seis meses". Ninguém pode prever isso! Acho que tem um tempo que tanto os pais quanto os profissionais de saúde precisam para construir essa verdade e saber como contá-la. Falar a verdade diretamente ou ocultá-la não é a forma certa. É sempre bom explicar. A criança entende uma situação que está acontecendo em casa e sempre é possível conversar com ela para perguntar o que pensa sobre isso. Poupar a criança dessa situação é o pior. Por mais que seja uma frustração, a verdade irá ajudá-la a aprender a viver.


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