ENTREVISTA
- Edição 88 - Out/2009
Denise Delfim

RAFAEL PLAUTO

O Brasil aparece hoje como segundo país com maior número de cães no mundo - 32 milhões -, perdendo apenas para os EUA. Na Vila Mariana basta andar pelas ruas para perceber a quantidade de moradores que possuem animais de estimação. Adotar ou comprar um cão demanda uma responsabilidade que vai muito além de dar carinho e levar passear. Indicado por vários petshops da região, o adestrador conta como se interessou pela profissão, explica as formas e desafios na hora de educar um cachorro, esclarece dúvidas freqüentes dos proprietários e ainda dá dicas para não deixá-lo ser o dono da casa

Pedaço da Vila: Quando você se interessou em trabalhar como adestrador de cães?............
Rafael Plauto: Sempre tive contato com cães e muita facilidade de entender, interpretar e me comunicar com eles. Então resolvi treinar meus cachorros no parque Ibirapuera, onde tinha um espaço dedicado para adestramento. Um senhor que trabalhava lá, com muitos anos de experiência, ficou impressionado com o meu domínio, pois o meu cachorro já fazia coisas que exigiam muita experiência para ensinar. Ele me obedecia a vinte metros de distância sem fala, só por meio de gestos. Isso era uma coisa difícil que, segundo o adestrador, mostrava a minha habilidade. Comecei então a frequentar todo final de semana o parque para acompanhar algumas atividades e ganhar mais conhecimento e metodologia. Quando vi como era gostoso, e rentável , trabalhar com isso, resolvi seguir a profissão, unindo o útil ao agradável. Fiz e continuo fazendo muitos cursos e sempre que posso leio sobre cães. Fiz cursos de obediência, sobre comportamento animal, psicologia canina, terapia com animais, ataque e defesa e correção de desvios. O meu forte hoje é comportamento. Eu não ensino nenhum comando que seja para apresentação. Foquei-me em adaptar o cachorro às regras da casa, fazer com que ele tenha uma vida social saudável, que não brigue com os cães na rua, pare antes de atravessar a rua, ande na calçada...

P.daVila: Raça e idade influem no adestramento?

R.P.: Entre raças há diferença, basicamente devido à facilidade de aceitação dos comandos. Tem raças mais dominantes, mais teimosas, não tão prestativas, mais dispersas. Isso interfere muito no tempo para se conseguir treinar. Mas todos os cachorros são passíveis de treinamento. A idade que nós chamamos de ideal para adestrar é de 4 meses a 1 ano e meio. Essa é a idade para se fazer um treinamento com rapidez e facilidade. A partir de um ano e meio, o cão já definiu o padrão de comportamento e sua personalidade. Assim, os defeitos também já estão mais fixados, aí fica difícil de corrigir. Quanto mais velho o cachorro, mais difícil corrigi-lo. Agora, para ensinar comandos novos, é fácil em qualquer idade.

P.daVila: Qualquer desvio pode ser resolvido?

R.P.: Sim, mas alguns não são possíveis de corrigir por completo. Um cachorro hiperativo, por exemplo, dificilmente se tornará um cão calmo. O que eu posso fazer é criar horários de atividades para diminuir o problema, mas não é fácil revertê-lo por completo.

P.daVila: Quais raças são mais difíceis para adestrar?

R.P.: Eu considero o Bull Terrier. Todos que eu já peguei e inclusive o que tive são muito estabanados, muito bobões. Eles chegam a ser burros, meio doidos, mesmo. O Bulldog também é difícil. Falando um pouco sobre a personalidade de algumas raças conhecidas, podemos citar o Dachshund (salsichinha), que é um cachorro extremamente dependente, carinhoso, mas muito ciumento, teimoso e turrão. É um cachorro fácil de treinar, mas, por ser muito teimoso, acaba rejeitando um pouco a dominação. O Beagle é um cachorro de caça, então ele precisa de atividade constante. Como hoje em dia ninguém tem tempo para dar atividades suficientes, normalmente eles começam a caçar a cadeira, as roupas, tudo dentro de casa. É um acúmulo de energia que ele precisa gastar, e como não consegue, acaba apresentando desvios de comportamento. O Poodle é um cachorro bem dependente, carinhoso, mas é uma das raças mais agressivas que existe. Ele é muito mais agressivo que um Rottweiler e um Pitbull. A única diferença é que não faz o estrago que essas duas outras raças podem fazer. A linhagem Terrier tem cachorros complicados, pois eles são muito ativos, gostam de morder muito. Normalmente gostam de atividades meio duras, são meio brutos e, apesar de serem pequenos, são muito ativos e teimosos. Algumas vezes, podem se tornar agressivos. Eles se dão bem com pessoas, mas não com animais. O Labrador é uma raça de companhia, extremamente dócil, na maioria das vezes hiperativo, mas não apresenta muitos desvios de comportamento.

P.daVila: Em que idade o cachorro fica mais calmo?

R.P.: Entre um e dois anos. O filhote normalmente é ativo e as brincadeiras de morder a mão e pular têm que ser podadas desde pequeno - se você faz carinho e o estimula, ele vai crescer achando que isso é certo.

P.daVila: Existem raças adequadas para cada faixa etária?

R.P.: Sim. Uma criança de até 4 anos não tem físico para aguentar as mordidas de um cachorro de porte médio ou grande, e invariavelmente todo filhote gosta de morder. Para essa idade, eu aconselharia um Golden Retriever ou um Labrador. Mas ele deve ser educado de forma diferente, pois vai ficar maior do que a criança e pode machucá-la, brincando. Para que isso não aconteça, o pai dessa criança deve ficar de olho e, a qualquer movimento brusco, corrigir, para que o cachorro entenda que precisa brincar com cuidado. Eu soube de no máximo dois casos de cachorros que se revoltaram contra crianças. Já para uma faixa etária de 7 ou 8 anos eu aconselharia um cachorro ativo das raças Golden, Labrador, Boxer, Shi Tsu, Maltês, Lasha Apso, vira-lata – que é ótimo para qualquer idade –, Pastor Alemão e Pastor Suíço. Na faixa de 9 a 20 anos eu repetiria as mesmas raças, mas incluiria as de porte mais forte, como Rottweiler, Pitbull, Bulldog. O adolescente quer se mostrar. E para ele é interessante ser dono de um cachorro que as pessoas vão achar bonito e forte. Para a terceira idade as raças ideais são Shi Tsu, Labrador, Golden, Pastor Suíço, Akita, Poodle, Maltês. Cachorros pequenos são muito barulhentos, em especial o Yorkshire, que é ótimo como companhia, mas dá muito trabalho.

P.daVila: Quais as melhores raças para se criar em apartamento?

R.P.: Apesar de ser grande, o Golden é muito fácil de ser educado. O Labrador também, embora seja hiperativo. Na hora de escolher um cachorro para apartamento, você tem que escolher o mais calmo da ninhada. Sempre que as pessoas vão comprar um cachorro, gostam do mais brincalhão – o que pode se tornar um problema. Na ninhada sempre tem um chefão, que brinca mais, que morde os outros. Não é aconselhável pegar esse. Por outro lado, nem sempre o cachorro que está deitado, dormindo, é o mais calmo. O ideal é passar várias vezes para observar a ninhada em diversos momentos. Existem algumas outras coisas que as pessoas devem levar em conta quando compram um cachorro. Primeiro, é preciso conhecer os pais, principalmente para as raças consideradas mais agressivas. Nesse caso, os pais precisam ser dóceis, carinhosos, aceitar estranhos e não ser agressivos. Normalmente, 50% do que o cachorro vai ser ele herda de seus pais e os outros 50%, da educação que ele recebe.

P.daVila:Como adestrador, que dica você daria às pessoas que possuem cachorros?

R.P.: Diria que o cachorro aprende por assimilação, assim como a criança. Sabe aquele bebê que está acostumado a ficar no colo e que quando vai para o berço começa a chorar e, aí, você pega ele no colo correndo e ele para de chorar? Esse também é o princípio do cachorro, que faz coisas às vezes até mesmo para testar e, pelo resultado, aprende o que precisa para obter o que quer. Aprende, por exemplo, que se ele sentar ao seu lado e olhar com cara de coitado vai conseguir comida. Um filhote que acaba de chegar em casa e é colocado para dormir sozinho chora a noite toda. Mas ele deve entender que precisa ficar sozinho. Ele não pode ser muito mimado, não pode ficar no colo o dia todo, pois não vai se acostumar com uma possível situação de dormir no quintal. Tem casos em que o cachorro é tão ligado ao dono que fica sem comer quando ele não está em casa. Com relação ao xixi, na teoria é bem fácil. Normalmente um filhote faz as necessidades entre 15 e 40 minutos depois de se alimentar. Então a primeira coisa é definir horários para alimentação. Depois disso, o dono vai restringir a área do cachorro e forrar o espaço todo com jornal e, após o cão ser alimentado, prendê-lo até que ele faça xixi ou coco. Feito, é a hora do carinho, mostrando que ele fez a coisa certa. Isso deve ser repetido durante a primeira semana. Se o cachorro estiver solto e fizer as necessidades fora do lugar, o certo é não brigar. O ideal é pegar o cachorro no colo, mostrar onde ele fez suas necessidades – sem esfregar o focinho no xixi – e depois prendê-lo por um tempo no espaço forrado com jornal. Dessa forma, o cachorro entende onde deve fazer o xixi e depois de algumas semanas vai definir um espaço dentro da área restrita, fazendo sempre no mesmo lugar. Então vai-se tirando as folhas do jornal até ficar uma ou duas. Se a área forrada é a mesma em que o cachorro dorme, a cama e a comida devem ficar do lado oposto. Outra coisa importante é deixar um pedacinho do jornal com xixi toda vez que for jogá-lo fora. Isso ajuda o cão a sentir o cheiro e fazer sempre no mesmo lugar.

P.daVila: O cachorro só tem um dono ou ele pode obedecer à família toda?

R.P.: Ele vai obedecer a todo mundo, mas sempre existe alguém que ele respeita mais, normalmente é a pessoa que tem mais domínio. As pessoas que agradam muito o cão não são as que ele respeita mais. Numa casa em que a mulher mima muito e o marido dá mais bronca, o cão vai obedecer mais ao marido. Outra coisa importante é a voz de comando. Quanto mais baixo você falar, mais o cachorro vai prestar atenção. Não adianta gritar achando que ele vai entender mais, porque isso não funciona.

P.daVila: O cachorro atualmente é tratado como gente. Isso gera problemas?

R.P.: Estamos vivendo em um mundo cada dia mais individualista e exigente. O cachorro desperta um amor puro, que a gente não encontra mais nas pessoas. Ele dá confiança, companheirismo, um amor que não cobra, não exige e está sempre à disposição. Uma ligação atávica. Mas quando começam a humanizar os cachorros, não é bom. Metade dos meus clientes são pessoas sozinhas que tem o cão como tudo na vida. E eu digo que o cachorro tem que ser tratado como animal. Humanizá-lo acaba gerando estresse e problemas que antes não existiam. Por exemplo, muitas pessoas fazem todas as vontades do cão e, com o passar do tempo, acabam virando reféns do animal. Isso atrapalha a vida social de muita gente. Os gastos com cachorro devem ser com ração, vacina e custos médicos. É uma bobagem pintar unha, pintar o pelo, comprar acessórios demais.

P.daVila: E para tratar cães sedentários?

R.P.: O sedentarismo para o cachorro equivale aos mesmos problemas que o humano enfrenta com a obesidade. O cachorro começa a apresentar problemas de coração, pulmão, de resistência, o que diminui - e muito - o seu tempo de vida. Além disso, influi em seu comportamento, deixando-o estressado. É importante controlar a alimentação e realizar atividades físicas. Depois de uma reeducação alimentar, eu entro com a parte de queimar as calorias, através de caminhadas, cooper, passeios, corridas com saltos, natação e até esteira.

Para saber mais: www.adestrador.kit.net


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